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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

DEPOIS DE 10 ANOS, RETORNEI A ÍTACA E A PENELOPE

 



 

Há retornos que não são geográficos — são ontológicos.

 

Voltar não é chegar a um lugar. É, antes, suportar tudo o que fomos enquanto estivemos perdidos.

 



ULISSES E A RECUSA DA GUERRA

Rei Ulisses, astucioso, fingiu plantar pedras. Simulou loucura — uma loucura que, como a de Hamlet, escondia método.

 

Não queria ir à guerra de Troia.

 

E não por covardia, mas por lucidez: sabia que seu lugar era com Telêmaco, seu filho recém-nascido, e com Penélope.

 

Helena era problema de Páris e Menelau.

 

É preciso saber a qual tradição literária se deseja pertencer.

 


 

QUALQUER UM PODE SER ULISSES

Desde que James Joyce transformou Leopold Bloom — um homem comum — em herói, qualquer um pode ser Ulisses.

 

Qualquer um pode tentar proteger seu filho simbólico, Stephen Dedalus, e ajudá-lo a reencontrar o caminho de si.

 

E eu, voltando ao rumo de mim, percebo que, embora Ulisses tenha demorado dez anos, havia promessas de distração por toda parte.

 

A ilha de Calipso. A deusa Circe. Os deuses. As volúpias. Os perigos.

 

Tudo aquilo que poderia tê-lo feito esquecer — ou morrer.

 

No Ulysses de Joyce, a Circe não é mágica: é uma taberna.

 

Embriaguez, desvio, dispersão.

 

Na vida cotidiana, os desvios são menos míticos — e mais materiais.

 


 

OUTROS HEROÍSMOS

Há também um heroísmo menos clássico.

 

Um que não é narrado por nenhum grande poeta.

 

Alguém que estuda desde cedo, segue um plano, passa no vestibular, forma-se médica, faz residência, trabalha, constrói uma vida justa e confortável.

 

Não é épico. Não é trágico.

 

Mas é, socialmente, o modelo de vida consagrado.

 

E há beleza nisso.

 

Ainda que não seja exatamente o meu caminho — há, ali, uma forma de sonho.

 

A beleza é que caminhos distintos ainda podem se encontrar.

 


 

O ENCONTRO

Foi por isso que a parabenizei.

 

Disse o que ela representa para mim — e tudo o mais que só ela saberá, caso tenha lido.

 

Porque há palavras que não pedem resposta.

 

Pedem apenas reconhecimento silencioso.

 


 

FILOSOFIA, SAÚDE E ESTILO

Meus caminhos são outros.

 

Não sou médico — mas aprendi que, hoje, os médicos talvez sejam os novos filósofos.

 

Desde o conceito de “grande saúde” em Nietzsche, compreende-se que o melhor remédio é o estilo de vida que torna o remédio desnecessário.

 

Dizem que o dinheiro serve para, em caso de doença, garantir o melhor tratamento possível.

 

Mas talvez seja mais inteligente viver de modo que isso nunca seja necessário.

 

Um cultivo — simbólico e financeiro — que se converte em moeda de troca de uma vida boa.

 


 

ÍTACA

No fim, todos os caminhos são apostas.

 

Apostas na felicidade. Na vida que acreditamos ser a melhor possível para nós.

 

Alguns demoram dez anos em guerra.

 

Outros, mais dez tentando voltar.

 

Mas há algo que permanece:

 

um dia, se chega.

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 22/03/2026
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