MORRE O MAIOR FILÓSOFO VIVO. E NÃO É CHUCK NORRIS.

Aos 88 anos, Chuck Norris morreu na mesma semana em que morreu Jürgen Habermas — alemão, possivelmente o maior pensador do século passado sobre comunicação e democracia.
Da mesma forma que só quem estaria feliz com a morte de Chuck Norris seriam traficantes, guerrilheiros cubanos ou agentes da KGB, só quem se alegra com a morte de Habermas são os fascistas que desejam — inclusive no Brasil — a dissolução violenta do Estado democrático de direito.
E são esses mesmos que, curiosamente, nutrem uma admiração quase fetichista por figuras como Chuck Norris: a arma, o peito peludo, a fantasia de fazer justiça com as próprias mãos.
A diferença é que Norris era puro entretenimento — e tinha talento real com armas. Já esses últimos têm apenas repetição, falta de empatia, ódio e a tentativa de gritar mais alto.
Habermas é considerado um filósofo otimista da segunda geração da Escola de Frankfurt — de Adorno e Horkheimer. Produziu por quase um século uma obra dedicada à ideia de razão comunicativa.
Sua hipótese é elegante: um debate público em que a melhor ideia — a mais razoável, orientada ao bem comum e sustentada pelos melhores argumentos — prevaleceria.
Uma visão que dialoga, em certa medida, com Hans Jonas, mais voltado às questões éticas e ambientais.
A ideia é bela — mas profundamente tensionada pela realidade.
Pierre Bourdieu, por exemplo, argumentaria o contrário: que os indivíduos não entram no debate público em condições iguais. Não possuem o mesmo capital cultural, simbólico ou econômico.
Alguns detêm o monopólio da fala legítima.
Outros sequer são ouvidos.
Há também os que compram espaço, mídia, influência — e fazem prosperar seus argumentos não pela força da razão, mas pelo poder.
Assim, embora a ideia de um debate racional seja bela e desejável, ela raramente corresponde à realidade.
Hoje, qualquer um — com uma página no Recanto, uma armadura enferrujada ou uma foto de macaco e alto-falante na mão — lê meia dúzia de páginas da Wikipédia e passa a acreditar que sua opinião possui peso, legitimidade ou conteúdo.
E talvez esse seja o verdadeiro problema:
não a falta de voz,
mas o excesso de vozes sem densidade.