× Capa Textos Áudios E-books Fotos Perfil Livro de Visitas Contato Links
DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


QUANDO EU JANTO TV VENDO COMIDA
 


 


 

I — O PRATO PRINCIPAL ERA A TELEVISÃO

Quem nunca?

 

Sentar-se diante da teve, preparar o prato e fazer da programação o verdadeiro prato principal — enquanto a comida cumpria apenas o papel de coadjuvante.

 

Durante anos, jantar diante da televisão foi um ritual doméstico quase litúrgico. A família reunida, a bandeja apoiada no colo, o olhar fixo na tela. A narrativa que vinha de fora organizava o tempo da refeição.

 

Hoje, confesso: vejo mais YouTube do que streaming.

Mais YouTube do que televisão a cabo.

 

Talvez porque ali exista ao menos a ilusão de escolha.

Mesmo que a escolha seja feita por um algoritmo que me conhece melhor do que muitos amigos.

 


 

II — QUANDO A IMAGEM MELHORA O SABOR

Houve momentos curiosos em que eu usava a própria imagem para melhorar a comida.

 

Para transformar arroz, feijão e proteína industrializada em algo mais digno, eu assistia MasterChef ou vídeos de comida como os de Corbucci Eats. Era quase um exercício imaginativo: enquanto via pratos de restaurantes cinco estrelas Michelin surgirem na tela, fingia — por alguns minutos — que aquilo também estava no meu prato.

 

A mente humana tem essa habilidade estranha: ela tempera a realidade com imaginação.

 


 

III — OS VERDADEIROS ERUDITOS DO YOUTUBE

Hoje, os influenciadores com conteúdo mais consistente, ao meu ver, estão no universo dos videogames.

 

É curioso, porque eu nem sequer sou um grande jogador.

Mas sou, sem dúvida, um grande consumidor de videogames — ao menos intelectualmente.

 

Consumo vídeos sobre jogos antigos, os chamados retrogames, história da indústria, consoles obscuros e curiosidades de mercado.

 

Admito: sempre achei o colecionismo de videogames uma mistura fascinante de paixão e idiotice. É bonito ver alguém preservar cartuchos e consoles históricos — mas também é curioso gastar pequenas fortunas em objetos que, no fundo, são apenas nostalgia materializada.

 

Ainda assim, canais como o Cogumelando ou a TV PH demonstram algo raro: conhecimento profundo aliado a entusiasmo genuíno.

 

Eles tratam videogames com a mesma seriedade que um historiador trataria um movimento artístico.

 

Se metade das pessoas aplicasse esse mesmo grau de curiosidade e dedicação aos seus próprios interesses, o mundo estaria cheio de indivíduos extraordinários.

 


 

IV — COMPANHEIROS DE ALMOÇO

Alguns criadores acabam se tornando mais do que canais.

 

Eles viram quase companheiros de rotina.

 

Luis, do RetroGamer Brasil.

Souja, do RetroQuest.

BRKsEdu. Leon e Nilce, que, confesso, embora eu seja mais jovem que eles, eu sou muito velho para continuar a vê-los. Mas é admirável o conhecimento de Leon alinhado a sua capacidade de comunicação para falar de tecnologia, ornando com a simpatia da Nilce que combina perfeitamente com o TDAH dele. Um casal perfeito, feitos um para o outro, como feijão com arroz, e tu e eu...

 

Gente que mora em outros países — Estados Unidos, Canadá — mas que aparece diariamente na minha mesa de almoço.

 

De certo modo, passo mais tempo com eles do que com muitas pessoas reais.

 

Mas, pensando bem, isso nunca me pareceu estranho.

 

Também passo mais tempo com personagens fictícios de livros e filmes do que com muitas pessoas reais.

 

E, para ser honesto, passo mais tempo comigo mesmo do que com qualquer pessoa.

 


 

V — A MORAL DAS ESCOLHAS

Ainda assim, continuo cercado de gente.

 

E tenho certeza de que estou muito bem assim.

 

Porque a vida é, no fundo, uma grande seleção de convivências.

 

Eu assumo todos os méritos pelos meus erros — mas também reconheço que muitos dos meus acertos nascem das relações que escolhi cultivar.

 

Os amigos que mantenho.

As mulheres cuja beleza me encanta.

Os amores que decidi — ou talvez apenas permiti — viver.

 

E até os influenciadores que escolho assistir.

 

O tipo de cultura que consumimos também nos forma.

 

E uma das definições mais profundas de moral talvez seja esta:

quando decidimos algo, nunca decidimos apenas para nós mesmos.

 

Escolhemos também o mundo que consideramos digno de existir.

 

Por isso nenhum ato da vida é moralmente neutro.

 

Viver é sempre uma grande responsabilidade moral.

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 16/03/2026
Alterado em 16/03/2026
Comentários