
Victor Hugo — o nome do elemento — revela como a única essência verdadeira do homem é a miséria. A partir daí, qualquer coisa além disso já é vantagem.
A diferença é que alguns resolvem transformar essa miséria em arte; outros apenas em vivê-la.
Um Victor Hugo escreveu Os Miseráveis e O Corcunda de Notre Dame. O outro é estuprador.
Eu estava querendo escrever sobre esse caso para defender a tese de que estupradores coletivos, na verdade, não gostam de mulheres. Muitos parecem gostar de homens — ou de dinâmicas em que observam outros homens, nus como eles, enquanto uma mulher sofre.
Quem realmente gosta de mulher não sente prazer em vê-la sofrer.
A realidade acabou me dando um apoio simbólico quando o sujeito apareceu usando uma camiseta escrita “Regret Nothing”.
Pelo que ouvi, essa frase é associada a um norte-americano ligado ao universo red pill, envolvido em agressões contra mulheres e tráfico de menores. Uma pessoa “super do bem”, que se apresenta como hipermasculina.
Hipermasculino que não gosta de mulher? Tipo, a versão norteamericana do famigerado calvo da Campari.
Esse caso também mostra que a miséria humana não é prerrogativa da miséria financeira. O rapaz fazia parte da elite do Rio de Janeiro e estudava em colégio tradicional.
Para consumir esse tipo de conteúdo em inglês, vê-se que ele teve acesso a educação e recursos.
Mesmo assim, escolheu usar a constatação da miséria humana para o mal.
É curioso como muitos red pills, além de misóginos, são culturalmente pobres. Seu repertório muitas vezes não vai além de citar Matrix como metáfora da realidade.
E ignoram que as próprias irmãs que criaram Matrix são hoje mulheres trans.
Prefiro citar Albert Camus em O Estrangeiro, quando o padre faz um sermão sobre o bem e o mal e o protagonista responde, impassível:
“Padre, tudo isso que o senhor disse é muito bonito, mas não vale um fio de cabelo de uma mulher.”
A mulher é um bem supremo — mesmo quando desperta apenas a animalidade ou a sensualidade. O único crime verdadeiro é atentar contra ela.
Os aspectos bons da minha personalidade talvez venham do meu lado feminino; os negativos, provavelmente do meu lado masculino.
Com a mulher se faz amor — não se odeia.
Elas são como a rosa que, como dizia Angelus Silesius, é “sem porquê”.
Ou, se quisermos um filósofo mais popular: Roberto Bolaños, o Chaves.
Na mulher não se bate nem com uma pétala de rosa — embora ele abrisse exceção para a Chiquinha.
Eu jamais ousaria bater em uma mulher.
(Com roupa.)
Voltando ao aspecto sério e sombrio: o rapaz saiu de cabeça erguida ostentando a camiseta red pill, dizendo não se arrepender de nada.
O que ele talvez não tenha percebido é que destruiu a própria vida aos 19 anos.
É como no filme Irreversível, de Gaspar Noé — só que ao contrário.
Por isso prefiro a frase final do filme:
“O tempo destrói tudo.”
Um filme essencial que eu não recomendo que você veja, porque ele é o melhor pior filme que já vi — mas você pode ler a minha resenha abaixo.
O POLÊMICO e INDIGESTO IRREVERSÍVEL
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