
O jogo mais polêmico da Rockstar não é GTA, nem mesmo Bully, em que um colegial faz atrocidades em uma escola. Apesar de polêmicos, o que traz certa leveza a eles é o humor.
Ao contrário de Manhunt, que não tem nenhum resquício de humor — nem na estética, que é fria, escura e sombria, e principalmente na história.
A trama gira em torno de um criminoso perigoso que foi condenado à cadeira elétrica por vários homicídios. Na iminência da morte, ele é salvo por um ricasso — uma espécie de Epstein ou daqueles ricos coreanos de Round Six.
Esse sujeito o compra para produzir um reality show de snuff.
Snuff é um gênero sobre o qual não se sabe ao certo se existe de fato; talvez circule na deep web. Seriam vídeos que comercializam mortes reais para lucro.
Filmes clássicos como Holocausto Canibalse venderam como sendo meio snuff, mas na verdade são apenas filmes de ficção com estética documental.
A ideia do jogo é simples: jogar esse criminoso em um cenário que lembra uma cidade fantasma, cercado por outros criminosos, igualmente psicopatas e criminosos
A única regra é sobreviver.
Usando armas brancas, objetos improvisados ou qualquer coisa que esteja à disposição. Quanto mais violenta for a morte, melhor para o espetáculo.
A cena final do jogo é quase grotesca: um homem gordo com uma motosserra enfrentando o protagonista psicopata, praticamente nu.
Em um grau menos grotesco, temos realities como Big Brother ou outros programas em que pessoas expõem suas vidas para entretenimento.
Mas há um ponto curioso: para quem aquele criminoso vende os vídeos snuff?
Existem espectadores.
E, de certo modo, eles são moralmente piores do que quem está apenas vivendo a situação.
Quem consome esse tipo de espetáculo é quem transforma a violência ou a exposição em produto.
Em certo grau, quem consome reality show pode ser mais vazio do que os próprios participantes.
Portanto, eu não teria vergonha alguma — nem mudaria nada — se toda a minha vida fosse transmitida para o mundo inteiro.
Até porque os NPCs (non-players — ou, nesse caso, atores) que interagem, participam ou contracenam comigo nesse suposto filme da minha vida são todos muito estúpidos e previsíveis. E deles nada tenho que me envergonhar — tampouco se for gente igual a eles que assiste ao meu show. Mas algo é certo: se eles realmente me assistissem, com certeza não seriam tão ignorantes, sedentários e gordos como são.
Ser observado. Ser julgado. Tanto nos momentos inspirados quanto nos momentos anódinos, de contradição ou até de rejeição ou espécie.
Porque eu estaria simplesmente vivendo a minha vida.
Quem observa obsessivamente a vida alheia, muitas vezes deixando de viver a própria, revela algo pior: uma curiosidade vazia e um certo instinto sádico.
É melhor viver e ser observado por invejosos e ressentidos do que sentir prazer em assistir a vida dos outros sem viver a própria.