DEUS IRÁ LER O RECANTO DAS LETRAS DE CADA UM DE NÓS NO DIA DO JUÍZO FINAL!

Isso economizará muito tempo divino. Nem serão necessários muitos anjos ou testemunhas. Bastará um arcanjo colocar na tela celestial de umas 500 polegadas e abrir o primeiro texto — ou qualquer um aleatório — de certos autores.
Ele vai logo acionar a descarga divina direta para o inferno.
“Mas eu sou de direita, Deus, pátria e família!”
Mas aí já será tarde. A pessoa já estará queimando.
Outra autora que chama todo mundo de “anjo de luz” — e por dia eu computo que ela deve copiar e colar o mesmo comentário umas 144 mil vezes — também irá para Hades.
Não por maldade, mas simplesmente por falta de criatividade. E também por chamar até Epstein, Hitler e João de Deus de anjo de luz.
Outro autor talvez, se houver essa possibilidade teológica, ficaria no limbo. O calor que ele passa usando aquela armadura e carregando aquela espada deve ser tão duro quanto a pedra que Sísifo empurra eternamente. Esses será o mesmo destino dos analfabetos funcionais ou de quem não sabe escrever.
Pauno Miranda iria para o céu, porque se fossem auditar todos os textos dele daria muito trabalho — e no céu é preciso trocadilhos para tornar o lugar mais aprazível.
Kathperu também vai para o céu, para cuidar dos bichinhos domésticos.
Flora vai para o céu porque ela parece um anjo — e não, não é piada, porque ela é confessadamente hipocrômica e pálida.
Comigo Deus terá trabalho. Será um verdadeiro tribunal.
Mas acredito que serei absolvido pelo humor, pela qualidade literária e pela sinceridade.
Porque, se você observar bem, apesar de não ser católico, todos os meus pecados eu confessei ao longo de mais de dois mil textos.
E minhas leitoras também vão para o céu.
Porque, para me aturar, têm que ter alma pura — quase divina.
E elas terão que me fazer companhia.
Quando eu for para o céu, espero que Deus me deixe escrever nas nuvens.
Mas se a escrita já é o paraíso — e eu já estarei no paraíso — meu receio é que não haja mais nada para escrever.
Quem tem Instagram e o usa de modo comedido entrará no limbo — uma espécie de cursinho de redação com foco em arte e cultura. Agora, produtores de conteúdo sem conteúdo, de TikTok e Kwai, irão direto para o inferno.