
Talvez o objetivo deste texto seja demonstrar como, quando uma pessoa se enquadra em rótulos — quando vira uma definição, um espectro político ambulante — ela reduz enormemente a própria existência.
O indivíduo deixa de ser múltiplo para tornar-se etiqueta.
E etiqueta é sempre menor que vida.
A direita, via de regra, não é conhecida pela densidade intelectual — nem entre cidadãos comuns, nem entre seus formadores culturais. O discurso tende a ser simples, palatável, ajustado ao repertório médio: o problema do imigrante, a discussão de gênero, o aborto.
Temas que dialogam facilmente com o conservadorismo religioso — cuja própria literatura, muitas vezes, é conhecida apenas superficialmente por seus adeptos.
O liberalismo, em sua versão vulgar, é frequentemente egoísta e pouco filantrópico. Sua ética é a do trabalho, da meritocracia e do mercado. A prosperidade do indivíduo e de sua família ocupa o centro. Tudo o que ameace essa unidade — o estrangeiro que “toma” o emprego, o diferente que desafia valores tradicionais — torna-se problema.
Com isso, revela-se pouca preocupação estrutural com a desigualdade. A igualdade é vista como ameaça à singularidade familiar e patrimonial.
Com esse discurso fácil — centrado no indivíduo e na família, e sustentado por slogans simplistas como “Deus, pátria e família” — eles reproduzem automaticamente, sem refletir objetivamente sobre o seu significado, reivindicando o monopólio da virtude moral por meio do próprio slogan.
A esquerda, por outro lado, reivindica para si o humanismo e a alteridade. Muitos de seus representantes pertencem à elite intelectual — e, não raramente, à elite econômica.
A intelectualidade amplia o contato com o outro, com o marginalizado, com o excluído. Daí nasce a preocupação discursiva com os mais vulneráveis.
Mas essa preocupação, muitas vezes, permanece no plano das ideias — desde que não implique perda concreta de privilégios.
O modelo escandinavo costuma ser citado como ideal: sociedades igualitárias, alta qualidade de vida. Mas mesmo ali, ninguém deseja ser o último. Todos querem ser ricos — e, se possível, os mais ricos.
No fundo, a essência humana talvez não seja nem direita nem esquerda.
É egoísmo.
Nietzsche chamava isso de vontade de potência.
O desejo de expansão, de afirmação, de superioridade relativa.
Os rótulos são máscaras morais que organizam essa vontade. Mas não a eliminam.
Reduzir-se a um espectro político é esquecer que antes de qualquer ideologia há um impulso mais profundo — que nenhum partido contém.