DISCURSO CONTRA LACRAÇÃO É LACRAÇÃO

A velha estratégia é conhecida: simplificar questões complexas até que se transformem em slogans. Reduzir debates densos a frases de efeito que cabem em um meme. E então gritar “lacração” como se isso encerrasse qualquer discussão.
Fala-se (ou late-se) alto contra cotas, de gênero, de desigualdade, de identidade, de políticas públicas — mas não se debate a complexidade dessas questões. Prefere-se caricaturar. E o cúmulo é ofender de “lacrador” quem ousa se manifestar sobre elas.
Nada foi discutido. Apenas se transformou o adversário em adjetivo.
Ontem eram “comunistas”, “judeus”, “subversivos”. Hoje são “lacradores”, “esquerdistas”, “petistas”,
“comedores de carnistas, comentaristas, trapezistas.
O rótulo substitui o argumento. O grito substitui o pensamento.
Mas é preciso perguntar: por que quase nunca se vê esses mesmos críticos produzindo discursos edificantes? Onde estão os textos sobre combate à desigualdade? Sobre pobreza? Sobre empatia? Onde estão as poesias? As contribuições culturais? Os artigos densos?
Curiosamente, o discurso é quase sempre dirigido às minorias. Raramente aos mais ricos. Raramente às elites econômicas. Raramente aos que concentram poder real.
Por que essa coincidência de alvo? Eles são o retrato plural da sociedade: esses covardes do pensamento estão por toda parte — do jornalismo esportivo, à la Rica Perrone, à indigência cognitiva, animal e chimpanzesca, ou vestindo elmo, espada e armadura no Recanto das Letras.
É como o suposto comediante que só acha graça em fazer piadas com os vulneráveis, nunca com os poderosos. O que essa predileção revela? O que essa estética revela sobre a visão de mundo de quem a pratica?
Há uma coragem seletiva que lembra o cavaleiro de Monty Python e o Cálice Sagrado: já sem braços e pernas, insiste em chamar o adversário de covarde.
Ataca-se quem pouco pode reagir. Quem está mais preocupado em sobreviver do que em disputar narrativa. É uma bravura que escolhe cuidadosamente seus oponentes.
No fim, o discurso “anti-lacração” muitas vezes não passa de uma lacração mais agressiva, mais purulenta e mais odienta. Compra o lado errado da briga histórica sob o pretexto de neutralidade.
Se lacrar é simplificar, reduzir, adjetivar e encerrar o debate — então gritar contra a lacração pode ser apenas a sua versão invertida.
O verdadeiro debate exige mais do que grito.
Exige coragem intelectual.