Amigos, permitam-me relatar uma experiência pessoal — dessas que começam como promessa de iluminação e terminam como estudo de campo em antropologia comparada.
Ganhei um concurso cujo prêmio era conhecer um célebre intelectual da extrema-direita. Garantiram-me que ali testemunharia a demolição definitiva de todas as teses associadas à esquerda, à chamada pauta woke e às ilusões igualitaristas modernas. Disseram-me ainda que ele demonstraria, com rigor quase científico, como o capitalismo seria a força histórica destinada a libertar os homens da miséria.
Achei curioso apenas um detalhe: o referido pensador encontrava-se filiado a um partido político — e, ao que consta, remunerado por ele. Mas relevei. Afinal, a coerência raramente sobrevive ao contato com a realidade material.
Cheguei ao local indicado tomado por legítima expectativa intelectual.
Era o Zoológico de São Paulo.
Mais precisamente: o recinto do babuíno-da-bunda-vermelha.
Confesso que, num primeiro momento, pensei tratar-se de um equívoco logístico. Contudo, ao observar atentamente a cena — o animal executando cambalhotas, manipulando as próprias fezes com curiosidade metódica e capturando moscas com dedicação quase filosófica — compreendi que talvez estivesse, sim, diante do objeto correto.
As ideias ali apresentadas pareciam intensas, gestuais, apaixonadas. Apenas não consegui compreendê-las. Falha minha, evidentemente.
Os intérpretes da obra daquele renomado pensador asseguram que sua linguagem é sofisticada demais para espíritos despreparados. Segundo eles, trata-se de pensamento profundo, cuja complexidade escapa aos ouvidos não iniciados.
Aceito o diagnóstico com humildade.
Talvez exista, afinal, uma filosofia inteira sendo produzida naquele recinto — e eu apenas ainda não tenha aprendido a língua em que ela é proferida.
