
Escrevo. Mas não sou escritor.
A frase parece modéstia — talvez seja apenas precisão.
Vivemos na era do “amo, logo sou”. Como se gostar de algo bastasse para encarnar sua grandeza. Não é porque escrevo que sou James Joyce. Não é porque Neymar joga bola que é Pelé. Não é porque Pelé dedilhas um violão que se torna Tom Jobim. Nem porque tenha composto a música do ABC se transformou em Vinicius de Moraes.
A prática não concede automaticamente a estatura.
Mas escrever, para mim, é fundamental. Não para que eu seja “escritor”, e sim para que eu saiba quem sou. Escrevo para me definir — e também para me expor. Nas verdades que afirmo e nas contradições que confesso.
A escrita é o lugar onde minha consciência ganha forma. Antes dela, há apenas intuição difusa. Depois dela, há algo tangível. Algo que pode ser confrontado, criticado, amado ou negado.
Escrever é talvez o gesto mais próximo do ato divino que o homem pode experimentar. A criação do mundo, segundo a tradição, nasce no pensamento de Deus e se manifesta pelo Verbo. A palavra cria. A palavra ordena o caos. O mundo é o sonho de Deus tornado escrita.
Humildemente, quando escrevo, faço algo semelhante: trago ao mundo o que antes existia apenas na minha mente. Transformo o invisível em linguagem. Dou corpo ao que era sonho. E ao tornar público o que era íntimo, permito que outros sonhem comigo.
Há também o outro lado. A genialidade que nunca se escreve permanece suspeita. Se um gênio existe apenas na própria cabeça, é gênio — ou é apenas alguém que fala sozinho? A escrita é a loucura compartilhada. É o risco de expor o delírio ao julgamento do mundo.
Em Hamlet, de William Shakespeare, o príncipe finge loucura — mas procura compreendê-la através da leitura. Dizem que “a leitura é a única distração desse infeliz”. Não era distração. Era método. Era investigação do próprio abismo.
A peça é curta demais para sabermos se Hamlet deixou algo escrito. Mas Shakespeare deixou. E é por isso que ainda o lemos.
Nem todos escrevem com tinta. Alguns escrevem com a própria existência. Sócrates nada escreveu — mas sua vida foi registrada por outros. Cristo também não deixou livros — deixou testemunhos. Há existências que se tornam texto nas mãos de discípulos.
Mas quem não escreve com palavras que ao menos escreva com atos. Que sua vida seja coerente o suficiente para que alguém deseje narrá-la.
Escrevo. Não porque sou escritor.
Escrevo porque preciso existir para além da minha própria cabeça.
Se não escrevesse, talvez fosse apenas pensamento disperso.
Escrevendo, torno-me forma.