
Existe algo mais triste do que o ódio? Sim: a redução. O momento em que um ser humano deixa de ser plural e passa a caber em uma única etiqueta. Quando alguém abandona a complexidade da própria liberdade para se tornar uma caricatura de si mesmo.
Chamo isso de ned flanderização. O que aconteceu com Ned Flanders, em Os Simpsons, é emblemático: no início da série, ele era um personagem multifacetado, com nuances, ambivalências, contradições discretas. Com o tempo, foi reduzido à sua característica mais evidente — o vizinho excessivamente religioso, ingênuo, quase panaca. De sujeito relativamente livre, tornou-se função. Tornou-se traço.
Jean-Paul Sartre, ao falar do garçom que encena sua própria função com exagero teatral, chamou isso de má-fé: o sujeito que se comporta como se fosse apenas aquilo que faz, negando a própria liberdade de ser outra coisa. Não é mais um homem que exerce a função de garçom — é “o garçom”, rigidamente.
Algo semelhante aparece em Georges Bataille, quando fala do problema do homem parcial: aquele que se reduz a uma única dimensão de si. Uma característica vira identidade inteira. A parte engole o todo.
Muitos hoje são quase o próprio Flanders — com uma diferença crucial: o personagem era ingênuo e, no fundo, de bom coração. Um cristão coerente em sua simplicidade. Já seus equivalentes contemporâneos frequentemente anunciam ódio enquanto proclamam fé; negam, na prática, o próprio evangelho que dizem defender.
Adotam slogans vazios. Elegem pautas simplificadas porque a simplificação é cognitivamente confortável: a discussão de gênero vira o grande mal, a redução penal vira solução mágica, a posse de armas vira símbolo de força, o imigrante vira ameaça, a distribuição de renda vira incentivo à preguiça — sempre “dos outros”, nunca deles, que trabalham muito por um salário mínimo e sentem que o mundo lhes deve reconhecimento.
Com tanto tempo dedicado ao ressentimento e à sobrevivência, é compreensível que falte energia para ser mais do que isso. Mas compreensível não significa desejável.
A flanderização não é monopólio ideológico. Há os que se defendem por um rótulo: o “maconheiro”, o “maromba”, o “futebolista”, o “workaholic”, o “roqueiro”. Vivem como se uma única marca bastasse para justificar sua existência.
O mais inquietante é que, muitas vezes, nem mesmo na característica que ostentam há profundidade. O roqueiro que não entende de música. O atleta que não compreende o próprio corpo. O militante que não leu. O religioso que desconhece o texto sagrado. A identidade vira performance superficial.
Flanderizar-se é abdicar da própria potência. É trocar a complexidade angustiante da liberdade por um roteiro previsível. É viver em má-fé, convencendo-se de que se é apenas aquilo que se repete.
O problema não é ter traços fortes. É permitir que um traço devore todos os outros. O ser humano é tensão, ambivalência, conflito interno, pluralidade de afetos. Quando se torna monotemático, empobrece.
A pergunta final é incômoda porque não é sobre “eles”. É sobre você.
Qual característica sua virou escudo?
Qual rótulo você usa para evitar o risco de ser mais complexo?
Em que momento você deixou de ser sujeito para virar personagem?
Você é plural — ou já virou caricatura?