
“Quem tem medo do lobo mau, lobo mau, lobo mau?”, cantavam os três porquinhos — e a pergunta, infantil na forma, sempre foi brutal no fundo. O lobo nunca foi apenas um animal; ele é a figura da ameaça que expõe a fragilidade das casas mal construídas. Hoje, o lobo mudou de pele. Não sopra palha nem madeira. Sopra inconsistências, desmonta argumentos frágeis e revela textos que não se sustentam.
De lobo mau eu não sei. Mas de inteligência artificial há inúmeros que tremem. Curioso: se alguém se diz tão criativo, tão autossuficiente, tão senhor de sua própria originalidade, por que temer uma ferramenta? Quem possui potência não teme instrumento — teme, no máximo, o próprio desvelamento.
O problema começa quando se analisa a suposta obra crítica. Muitas vezes, não há diferença estética relevante entre certos textos humanos e um produto mediano de IA — às vezes, a máquina entrega mais coesão. Pior: há quem, mesmo com auxílio tecnológico, não consiga elaborar vinte linhas minimamente articuladas. Imagine o pensamento de alguém incapaz de sustentar duas dezenas de linhas sobre qualquer tema. Isso não é apenas limitação técnica; é sintoma cognitivo.
Escrever é organizar o pensamento. Quem não consegue escrever não pensa com profundidade — apenas reage. E a reação é sempre mais barulhenta que a reflexão.
Vimos recentemente um exemplo claro da importância da inteligência humana e da cultura aplicada à tecnologia: o uso de inteligência artificial para “corrigir” memes famosos — o do homem que exige café de forma desajeitada, o sujeito excêntrico do paletó em surto psicótico, a mulher do sanduíche-íche-íche, o repórter da Uva. Personagens que viralizaram não por genialidade, mas por falhas de comunicação.
O que a IA fez foi simples e, ao mesmo tempo, revelador: por meio da linguagem — matéria-prima do pensamento, adquirida com estudo e elaboração — reescreveu suas falas, reorganizou suas ideias e devolveu domínio discursivo àqueles personagens. De ridicularizados, passaram a articulados. Perdeu-se a graça? Talvez. Não viralizariam? Provavelmente não. Mas seus futuros, simbolicamente, iriam além de virar piada.
A tecnologia, nesse caso, não serviu para humilhar — serviu para demonstrar que o problema nunca foi a inteligência em si, mas a incapacidade de estruturá-la linguisticamente. A IA não criou pensamento; apenas organizou o que estava disperso.
Para quem quiser assistir ao vídeo com a IA “corrigindo” os memes, segue o link:
https://youtube.com/shorts/MqglR8Ox5j8?si=W-BIuy3Q_lrZWERk
Enquanto isso, no mercado corporativo, a inteligência artificial já deixou de ser debate moral para se tornar estratégia operacional. A Microsoft, no ecossistema do Xbox, sinaliza aos acionistas que a redução de custos e a ampliação de margens passam pela incorporação massiva de IA — inclusive substituindo profissionais experientes do setor de games por especialistas em sistemas algorítmicos.
O recado é claro: não se trata de romantismo, mas de eficiência. O impacto da IA não será sentimental; será adaptativo. Haverá dois grupos: os que aprenderão a utilizá-la como extensão de sua criatividade e os que a negarão por ressentimento — até serem substituídos por ela.
Nesse sentido, a transformação se assemelha a outro fenômeno evolutivo: o sedentarismo e a alimentação hipercalórica. A tecnologia não é, por si, decadência; ela amplia tendências. Os adaptados prosperam. Os desatentos adoecem. Alguns acumulam potência; outros acumulam vícios, obesidade simbólica e doenças crônicas da mente.
A IA não cria mediocridade. Ela a expõe.
Como lembrava Antonio Candido, os livros são tão essenciais à vida quanto o pão — deveriam integrar a cesta básica. O problema é que somos uma sociedade que se alimenta mal em ambos os sentidos. Há desnutrição física, mas também intelectual. Lê-se cada vez menos. E, quando se consome conteúdo, ele é hipercalórico: superficial, imediato, viciante como açúcar barato.
Temer a inteligência artificial enquanto se vive de migalhas cognitivas é como culpar a balança pela própria dieta.
O lobo contemporâneo não destrói casas frágeis. Ele apenas revela quais casas já eram frágeis. Quem souber usar a tecnologia como aliada continuará construindo em tijolo. Quem insistir na palha chamará de injustiça aquilo que é apenas consequência.
Quem tem medo do lobo digital?