NÓS, VAGABUNDOS, SOMOS MUITO OCUPADOS

Há aquela tirinha de Calvin e Haroldo. Um pergunta ao outro — não lembro a ordem, até porque nem sei exatamente quem é o gato e qual é o garoto:
— Haroldo, nós somos vagabundos?
O outro responde (ou talvez invertendo os papéis):
— Não, Calvin. Vagabundo é quem não tem o que fazer. Nós temos o que fazer. Só não fazemos.
Essa é uma definição perigosa.
Acho que, para alguns, trabalhar é um grande descanso.
Porque eles não saberiam como dispor do próprio tempo. O patrão resolve esse problema — e ainda remunera, oferece rotina e uma identidade pronta.
Para o indivíduo desprovido de espírito próprio, isso é o mais próximo de uma plenitude possível.
Agora, dispor do próprio tempo é outra coisa.
Como em Domicílio Conjugal, de Truffaut, quando Antoine Doinel diz a Christine que, para ele, o dia deveria ter 48 horas.
Se não fosse a própria literatura — Gabriel García Márquez nos alertando sobre o perigo da insônia — ou talvez Palahniuk em Clube da Luta, eu também preferiria não dormir.
Porque há algo na vigília criativa que se aproxima do excesso vital.
Essa vagabundagem ocupada — que Domenico De Masi chamou de ócio criativo — é o que permite as grandes ideias.
É o que permite pensar. Criar. Organizar o próprio dia segundo critérios que você mesmo estabelece — e não segundo ordens externas.
E não há pior patrão do que você mesmo.
A culpa é dos clássicos da literatura com suas mais de 500 páginas.
Dos filmes de três horas.
Da vagabundagem artística e contemplativa.
Ela é inimiga direta do nosso tempo de vídeos curtos, rasos, instantâneos, do Instagram e do TikTok.
Porque o vagabundo criativo não está ocupado.
Ele está produzindo algo que ainda não tem nome.