A VIDA É UM COBERTOR CURTO

Aludi à aposta de Pascal no meu texto anterior. Não só o filósofo francês, mas todos nós fazemos apostas. Apostamos sempre na felicidade.
Mas, para mim, a única aposta válida é na nossa melhor versão.
Ser o melhor possível não garante felicidade. Não garante que o mal não nos atinja. Não garante que não sofreremos.
Nosso compromisso é outro: apesar das circunstâncias e dos limites materiais que nossas condições nos impõem, fazer o possível para sermos a melhor versão de nós mesmos.
Explorar aquilo que o ser humano tem de mais elevado: arte, cultura, linguagem, beleza.
E converter os recursos materiais em aprimoramento físico e intelectual.
Há aqueles que possuem todas as condições materiais — riqueza, acesso, privilégios — e ainda assim não são sua melhor versão. Isso é fácil de constatar.
Porque a vida é sempre um cobertor curto.
Você escolhe qual parte quer cobrir — e inevitavelmente descobre outra.
É claro que, para alguns, o cobertor é mais curto do que para outros.
E há os que, cansados dessa limitação, apostam numa outra existência.
Mas é curioso observar que muitos dos discursos mais inflamados de ódio vêm justamente daqueles que proclamam “Deus, pátria e família”.
Ódio ao diferente. Ódio a quem pensa diferente.
Ódio até mesmo diante da morte, como li um símio aqui no recanto despeitando a memória de Marielle Franco.
Amor, por vezes, apenas às armas e à lei de talião.
Talvez porque seja mais fácil defender abstrações do que sustentar a própria melhor versão na prática.