QUEM ME DERA O DIABO EXISTISSE

Não é como diz Riobaldo, que um diabo habita em cada um de nós. O diabo é o próprio homem.
Na natureza existe apenas sobrevivência — não existe maldade. A maldade é invenção humana. O ser humano projeta sua própria sombra em forma de espírito e chama isso de bem ou de mal.
Se o diabo existisse, Deus também existiria. E então eu poderia escolher entre o bem e o mal como forças externas a mim.
Mas não havendo diabo, também não há Deus como oposição ontológica necessária.
E se não há Deus nem diabo, tudo é permitido.
Porque o mal deixa de ser tentação e passa a ser condição inerente ao homem. E o bem deixa de ser amparo invisível e passa a ser responsabilidade exclusiva.
Se o diabo existisse, o bem seria possível como escolha protegida por uma força maior. Eu poderia descansar, crer que um poder invisível inclinaria minha vida para o lado certo.
Sem essa metafísica, estamos sós.
Não podemos contar com ninguém para nos salvar daquilo que somos capazes de fazer.
A aposta de Pascal dizia que era melhor acreditar em Deus: se estivesse certo, ganharíamos a eternidade; se errado, não perderíamos nada.
Mas Pascal desconsidera algo: o verdadeiro diabo pode ser desperdiçar a única existência comprovável que temos.
Viver esperando uma salvação futura pode significar negligenciar a única realidade concreta.
A verdadeira aposta não é na eternidade.
É na melhor versão de nós mesmos, todos os dias.
Minha luta não é contra um demônio externo.
É contra o mal imanente à existência humana — aquele que nasce das minhas próprias escolhas.
Se há redenção, ela acontece aqui.
Se há inferno — ou paraíso — ele também.