
O senso comum costuma dizer que quem não trabalha é vagabundo.
Mas basta observar os trabalhadores em horário de pico: a negligência no vestuário, os corpos abandonados, o sedentarismo disfarçado de cansaço, a repetição maquinal dos mesmos gestos. Movimentos executados sem reflexão, sem questionamento — como se o labor, além da subsistência, oferecesse um entorpecimento e, pior, uma identidade emprestada.
Para muitos, trabalhar não é produzir sentido; é fugir do vazio.
O trabalhador vagabundo é aquele que necessita de alguém para dizer o que deve gostar, o que é certo ou errado, o que é permitido ou proibido, com quem deve se casar e que moral deve seguir.
Sua incapacidade cognitiva muitas vezes o impede até de alcançar os próprios objetivos. Trabalha, mas não constrói.
É o mais distante da atividade artística, elegante e criadora — aquilo que distingue o humano do animal.
Gasta calorias inutilmente e as repõe com alimentos hipercalóricos, consumindo em uma hora mais energia do que produz em dias. Limpa a casa ou a rua não por asseio, mas por falta de imaginação. Ficar parado seria angustiante demais, pois significaria estar sozinho consigo mesmo. E talvez pensar.
Mas que pensamento pode emergir de alguém que apenas repete? Que não cultiva linguagem, repertório, gosto?
Rolar o Instagram infinitamente é o mesmo gesto de apertar o mesmo botão numa engrenagem de fábrica. A mesma lógica. A mesma anestesia.
Como em The Stanley Parable: não pode se permitir o ócio reflexivo porque precisa trabalhar — e não domina sequer o próprio idioma, quanto mais outro.
Mesmo nos nichos supostamente conscientes, ele se impõe com sua incompetência: está nas academias há meses e o único músculo que cresce é a barriga. Ou treina há anos, autossabotando-se, incapaz de mudar uma vírgula do próprio corpo.
E há os que mudam o corpo, mas deixam atrofiado o órgão que mais consome energia: o cérebro.
Treinar o físico e não ter nada para pensar, refletir ou contemplar seria, para mim, a pior forma de vazio.
O trabalhador vagabundo sonha com uma casa, uma bela mulher, filhos, talvez um pequeno comércio — para exercer, feliz, sua repetição até o fim da vida.
Adota slogans: pela pátria, pela família, pela eternidade. Em sua arrogância, reivindica não apenas a perpetuação de sua mediocridade na Terra, mas também nos mundos supraterrenos.
Quer eternizar sua repetição.
E chama isso de dignidade. Em humildade post mortem, pelo menos, eles não são medíocres.