ESSE MANDAMENTO É IMPOSSÍVEL DE CUMPRIR

Não cobiçar a mulher do próximo talvez seja o mandamento mais difícil — talvez até impossível. Porque, muitas vezes, o desejo surge antes mesmo de sabermos a quem pertence aquilo que desejamos.
O mandamento parece pressupor que o amor seja racional. Mas não é.
Posso escolher não agir. Posso escolher não ultrapassar limites. Posso escolher não me relacionar com a mulher do próximo. Mas não posso escolher não desejar, não sentir, não ser atravessado por um afeto que simplesmente aparece.
Ainda que alguém seja casada ou comprometida, isso não a transforma em propriedade. Significa apenas que ela escolheu um vínculo.
Às vezes, essa mulher do próximo é próxima mesmo — física e existencialmente. Pode haver um reconhecimento mútuo, difícil de nomear. Um olhar que entende. Um silêncio que comunica.
Talvez, no íntimo, haja reciprocidade. Talvez ela também perceba algo — uma afinidade, uma tensão sutil, um pensamento que jamais se transformará em gesto.
Pode até imaginar que, em outra circunstância, permitiria aquele amor existir plenamente. E ainda assim permanecer fiel às escolhas que fez.
Poderíamos sair juntos — num cenário hipotético — e, mesmo que houvesse desejo no ar, haveria também alegria, companhia, conforto raro.
Conversas longas. Silêncios tranquilos. A leve tristeza antecipada da despedida.
No fim da noite, depois de um bolo gelado de prestígio e uma fatia de brigadeiro, água gelada ou refrigerante zero — porque não bebemos e buscamos saúde — cada um seguiria seu caminho.
Um abraço apertado. Um beijo na bochecha.
E dentro do peito, a fidelidade — não apenas ao outro, mas a si mesmo.
Talvez cumprir o mandamento não seja eliminar o desejo — mas assumir responsabilidade por ele.
Não é a ausência da cobiça que prova caráter. É o que se faz — ou deixa de fazer — diante dela.
Como quem escreve um texto sem esperar nada em troca, apenas que alguém leia e guarde algo dentro de si.
Uma reciprocidade invisível.
Um entendimento mútuo entre aqueles que seguem não apenas leis divinas, mas também aquilo que o coração reconhece sem precisar dizer palavra alguma.