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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


COMO LER GRANDE SERTÃO: VEREDAS

 



 

Esta obra tem paralelo com o sexo: no começo, dizem — não sei — dói. Depois dói e é gostoso. E, por último, só é gostoso mesmo.

 


 

UM ÚNICO FÔLEGO

O texto não tem capítulos. Começa com um travessão. É um único fluxo narrativo, quase um único parágrafo: um longo monólogo de Riobaldo — caipira e ex-jagunço — dirigido ao “doutor”, escrito sob a pena de um artista da palavra da envergadura de Guimarães Rosa

 

O resultado é tão bonito que eu me perco na poesia da prosa e leio várias vezes as mesmas páginas, não pelo hermetismo, não por falta de entendimento ou capacidade, mas por admiração da construção.

 

Para quem é contra o uso da IA e diz que ela pode substituir a capacidade humana, gostaria de pedir que ela corrigisse o texto de Grande Sertão: Veredas. O resultado seria, possivelmente, uma obra de Paulo Coelho. Máquina alguma escreveria Finnegans Wake, O Som e a Fúria, Ulisses, Catatau. Ponto. Nem mesmo este texto.

 


 

APRENDENDO A LER O SERTÃO

Para ler Grande Sertão: Veredas, nas primeiras páginas — digamos, nas primeiras 70 — você precisa ir se acostumando com o tamanho da p… de Guimarães. Quero dizer, obviamente, a pena, não a pica. Ou seja: com a linguagem de Riobaldo, um sertanejo por trás da interpretação de um intelectual.

 

Ele fala confuso. Não é para ser lido; é para ser sentido. Não é uma obra de cunho plenamente intelectual, mas sensorial. Como se diz da obra de Deleuze, O Anti-Édipo: ela não é difícil; é que é necessário outro cérebro para entendê-la. Assim também acontece com Grande Sertão. Conforme você se acostuma, é igual à vida: “aos poucos o escuro fica claro.”

 

Dispa-se de certezas e preconceitos para apreciá-la. Dizem até que quem é sertanejo, sabe ler, mas tem poucas letras, possui mais acesso à beleza e ao entendimento da obra do que quem lê com olhos intelectuais e pedantes. Ler em voz alta também ajuda.

 


 

O AMOR, O DEMÔNIO E O SPOILER

Sem dar spoiler — ou melhor, dando, porque não seria um texto meu sem isso — analise o momento da campanha de Riobaldo, com quem ele conversa, as excursões que resolve abandonar, a beleza poética com que fala de sua relação com Diadorim.

 

O clímax é a relação sensual e erótica entre dois cangaceiros, Riobaldo e Diadorim, e a revelação final desse vínculo, narrada em passagens profundamente poéticas e sensuais.

 

Há também o pacto com o diabo que Riobaldo faz — nunca fica claro se deu certo ou não. Tudo o que sabemos é que sua vida muda significativamente depois disso. Porém, como todos sabemos, todo pacto, principalmente com o demo, deixa seus custos.

 


 

O ORGASMO LITERÁRIO

Uma leitura que, como o sexo, ao término das mais de 500 páginas, é um orgasmo literário: uma delícia que acaba deixando gosto de quero mais.

 

 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 18/02/2026
Alterado em 18/02/2026
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