FEMINICÍDIO COMO CULPA DA VÍTIMA.
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Li um texto assaz palpitante de um certo recantista que atende pela alcunha de HD — ou pendrive, ou qualquer outro dispositivo de armazenamento. Talvez disquete, pelo nível retrógrado dos argumentos.
Ele escreveu, enfaticamente, que mulheres são culpadas pelo feminicídio por não saberem julgar o caráter de um homem. Segundo sua lógica, diante de um homem de “bom caráter” — como ele próprio parece pressupor ser —, elas escolheriam envolver-se com outro tipo de sujeito.
Como se o julgamento moral não fosse subjetivo.
Como se a maldade humana não se manifestasse, justamente, pela dissimulação.
Como se a psicopatia não fosse, muitas vezes, a arte de simular virtude.
Quando a serpente apareceu a Eva, não se apresentou como vilã.
O piloto da companhia aérea — 35 anos de empresa, 50 de casamento, pai exemplar, funcionário modelo — tinha “bom caráter” aos olhos do mundo. Havia apenas um detalhe: era pedófilo e utilizava seu dinheiro para subornar vítimas.
Para a sociedade, respeitável.
Para as vítimas, predador.
Muitas vezes, por vulnerabilidade social e financeira, a mulher encontra-se presa a estruturas que a impedem de simplesmente “julgar melhor”.É nesse desequilíbrio estrutural que nasce o ovo da serpente do feminicídio — não na suposta incapacidade feminina de discernimento.
Nem homens nem mulheres conseguem julgar o caráter com segurança.
Nem Bentinho soube julgar.
Nem Otelo.
Iago parecia homem de confiança para Roderigo (“Enche a tua bolsa”) e para Cássio.
Shakespeare inteiro é um tratado sobre o erro de julgamento.
Culpar a vítima revela mais sobre quem acusa do que sobre quem sofre.
É o mesmo mecanismo de quem, diante do caso de racismo sofrido por Vinicius Jr. ontem, pergunta ao amigo:
“Você viu o que o Vinicius Jr. aprontou ontem de novo?”
Como se estivesse deslocando a culpa para a vítima.
Ou de quem culpa a mulher pela roupa que veste.
Pelo modo como se porta.
Por beber demais.
Como se comportamento fosse convite.
Como se liberdade fosse autorização.
Como se existir fosse provocação.
E, na pior das hipóteses, como se tudo isso justificasse a morte.