Recebi uma revelação — como os antigos profetas — de que um recantista, que trajava bravamente elmo, armadura e espada, possuidor de absoluta certeza sobre o bem e o mal, o certo e o errado e toda a organização da sociedade humana, foi escolhido por Deus, que resolveu tirar um ano sabático da governança do mundo.
Durante esse período, decidiu legar o comando da humanidade a esse cavalheiro de armadura, que assumirá oficialmente a administração global quando o referido pensador completar cem anos.
A julgar pelo cheiro de naftalina das suas ideias, não deve faltar muito.
A única preocupação do mundo sob sua liderança será um pequeno detalhe: o inevitável aumento da concentração de renda nas mãos dos mais ricos. Os bilionários provavelmente triplicarão, enquanto a mortalidade deverá crescer exponencialmente — já que ele defende distribuir uma arma ao bebê logo no nascimento, para que aprenda desde cedo a se defender sozinho.
Coerência filosófica acima de tudo.
Ele próprio, entretanto, continuará pobre. Afinal, Deus não recebe salário.
Mas ao menos realizará seu grande sonho: deixar de ser apenas um comentarista do universo para finalmente tornar-se um deus em tempo integral.