
Se no inferno há figuras como Epstein — e se é possível que o próprio diabo seja pior do que ele — talvez seja melhor você se comportar.
Às vezes penso que a existência de pessoas assim é justamente o que nos faz desejar o inferno. Não por fé, mas por vingança. Queremos que exista um lugar onde o mal encontre uma medida proporcional.
Como alguém, armado apenas de lábia e dinheiro, conseguiu se relacionar com tantos poderosos? Há algo de admirável na habilidade social — e algo de absolutamente terrível no uso que dela foi feito.
Diante do maior escândalo envolvendo super-ricos revelado nesse caso, algo se torna incontornável: há uma classe de indivíduos que desfruta de uma liberdade que não é moral, mas material — liberdade para agir, para silenciar, para encobrir e, sobretudo, para dar vazão à própria depravação.
O caso expõe uma verdade incômoda: o mal não tem esquerda nem direita. Ele atravessa ideologias com a mesma facilidade com que atravessa fronteiras bancárias. Vai de Noam Chomsky a Steve Bannon, de Donald Trump a Bill Clinton. O espectro político é irrelevante diante da variável decisiva.
A única semelhança real entre esses nomes é o dinheiro — esse servo moderno de Baal, capaz de comprar silêncio, companhia, absolvição temporária e até reputação reciclada.
Não se trata apenas de magnatas. O piloto trabalhador, pagador de impostos, que utiliza seu vultoso salário para abusar de menores, demonstra que o problema não é ideológico, mas estrutural: quando há recurso suficiente, há também margem para a realização do desejo sem freio.
O pobre, ao contrário, raramente é “livre”. Não por virtude superior, mas por limitação material. Sua condição restringe até mesmo a possibilidade de expandir seus vícios. A miséria impõe contenção onde o capital concede licença.
É a mesma contradição do bilionário proprietário de um clube inglês que acusa imigrantes de “colonizarem” a Grã-Bretanha enquanto sonega impostos e vive confortavelmente em Mônaco. A retórica nacionalista convive com a evasão fiscal internacional.
No fim, o dinheiro não redime caráter; apenas amplia escala. Ele não cria o mal — mas o potencializa. E quando o capital substitui a consciência, a moral torna-se acessório de luxo.
Surge então a pergunta: por que a divulgação massiva de arquivos ocorre apenas agora? Milhões de documentos, dados, relatos. Será que, na avalanche previamente analisada, não há nada realmente comprometedor para a ordem econômica? Ou estamos diante de uma cortina de fumaça — um bode expiatório útil para desviar a atenção do verdadeiro esquema?
Vivemos a era da superprodução de interpretação. Qualquer um pode abrir um canal, editar um vídeo, vestir o figurino de jornalista e fabricar conexões. De teorias envolvendo Eyes Wide Shut e Kubrick, passando pela revelação rituais secretos e crises financeiras globais, até as mais delirantes acusações de canibalismo.
É preciso cautela. Informação não é revelação. E nem toda revelação é verdade.
Epstein é uma figura simultaneamente abjeta e fascinante. Um professor de matemática, sem formação universitária concluída, que ingressa em um banco de investimento, circula entre bilionários e transforma capital social em patrimônio financeiro.
Seu verdadeiro ativo não era dinheiro — era acesso. O círculo de amizades era sua moeda. Com dinheiro e influência, construiu a liberdade para dar vazão a desejos perversos, quase caligulescos.
É digno de repúdio. Mas também provoca uma fascinação desconfortável. Porque ele revela algo profundamente humano: o poder corrompe, mas também seduz.
Imagine morrer e encontrar alguém assim no inferno — lado a lado com alguém que pecou por gula. Parece desproporcional que ambos compartilhem o mesmo destino.
A solução de Dante, com círculos hierárquicos de punição, parece mais justa — mas igualmente fantasiosa.
O conceito de inferno é, talvez, superestimado. Ele contraria a humanidade de um Cristo que morreu pelos pecados de todos.
O inferno é a projeção do nosso desejo de punir. Como descreveu Foucault, a punição já foi espetáculo público: corpos fervidos, membros arrancados, multidões assistindo com prazer moralizado.
Punir é humano. Perdoar é divino.
Se é humano negar a pena de morte, como podemos aceitar a ideia de condenação eterna? Que justiça é essa que não admite redenção?
Quem se compraz com a ideia de sofrimento eterno talvez revele algo igualmente perverso. Porque, afinal, se quem peca é o corpo — e a alma seria a parte nobre — por que não admitir a possibilidade de aperfeiçoamento sem as mazelas de um organismo imperfeito?
Talvez o inferno seja menos um lugar e mais um desejo. E talvez o verdadeiro julgamento não seja o fogo eterno — mas a incapacidade de abandonar o prazer de ver o outro arder.