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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos


SUICIDOU-SE, MATOU OS FILHOS —

MAS SUA PRIMEIRA VÍTIMA FOI A LÍNGUA PORTUGUESA

 



 

A CARTA

 

Essa foi a carta deixada pelo facínora de Goiânia que tirou a própria vida depois de assassinar os filhos. Mas, antes de qualquer disparo, antes de qualquer gesto extremo, sua primeira vítima foi a língua portuguesa. Agindo, ao contrário do que disse Stalin — que fizeram a revolução (sangrenta), mas ao menos conservaram a bela língua russa —, aqui a bela língua portuguesa não foi poupada e foi executada a sangue-frio.

 

Cabe perguntar: alguém que, na carta mais importante da própria existência escreve daquela maneira — pois, segundo Albert Camus, o suicídio, isto é, a decisão sobre se a vida vale ou não a pena ser vivida, constitui a questão filosófica mais importante —, além de ser capaz de qualquer atrocidade, teria condições de sustentar um relacionamento?

 

Se, como sabemos, o pensamento é constituído de linguagem, que qualidade de pensamento pode emergir de alguém cuja escrita revela tamanha precariedade? Poderia esse homem sustentar o interesse de uma mulher para além da aparência, do físico, da comodidade?

 

Relacionamentos são feitos de convivência, conversa, atração contínua. São feitos de linguagem. E aquela carta, no momento derradeiro, revela que ele nada tinha a oferecer nesse campo.

 


 

A IMAGEM E A AUSÊNCIA


 

Para agravar o cenário, ao que tudo indica, a mulher já havia se separado dele quando a fotografia comprometedora circulou.
 

A imagem divulgada dias depois, ao lado das filhas e da esposa, teria sido manipulada por inteligência artificial, justamente porque já não estavam mais juntos.

 

No dia de sua morte e do homicídio premeditado, não possuir sequer uma fotografia real, uma lembrança autêntica — recorrendo a uma imagem gerada artificialmente — é sintoma de alguém despreparado para a vida e, sobretudo, para o vínculo.

 

É nesse vazio que muitos tentam explicar a traição. Mas a questão não é a traição em si. É o que se oferece — ou o que se deixa de oferecer.

 


 

O QUE SUSTENTA UM RELACIONAMENTO

Para traçar um paralelo, pensemos em um homem de cultura, como o jornalista André Barcinski, repertório e escrita refinada. Mesmo que sua aparência não corresponda aos padrões juvenis, ele sustenta algo que ultrapassa o efêmero: conversa, história, densidade.

 

A pergunta é inevitável: trair para ficar com quem? Buscar o quê? O “zezinho da esquina”?

 

O que sustenta um relacionamento não é apenas o toque ou o corpo, mas a capacidade de produzir sentido. Histórias. Conteúdo. Mundo compartilhado.

 

O banal gera monotonia. A monotonia gera carência afetiva. E a carência, quando não preenchida por linguagem e presença, abre fissuras.

 

A carta, portanto, não foi apenas confissão. Foi diagnóstico.

 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 14/02/2026
Alterado em 17/02/2026
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