ALÉM DE CORNO, ERA HOMICIDA

Não sei se o algoritmo está tentando me vender o apocalipse — mas as notícias recentes que ele insiste em me entregar parecem a personificação dos “fins dos tempos”.
Um piloto de avião que, com mais de 60 anos, usava o próprio salário de 35 anos de empresa para pagar valores irrisórios a adolescentes.
A morte por intoxicação de cloro na piscina.
O piloto de 19 anos de brasília que espancou um de 16 até a morte.
O cachorro mártir assassinado por adolescentes.
Uma gangue de enfermeiros que manipulava medicamentos e assistia à morte com prazer.
E agora o homem que, ao descobrir a traição da esposa, matou os próprios filhos e depois a si mesmo.
O mundo parece estar girando em torno de uma mesma engrenagem: ressentimento, humilhação e violência.
Depois, perguntam-se por que foram traídos.
Como se a violência não fosse sintoma anterior.
Como se o controle, o rancor e o ego ferido não fossem perceptíveis.
Os mais perigosos, porém, não são apenas os que matam.
São os que imediatamente deslocam a culpa para a mulher traidora.
Os que defendem a lógica da posse.
Os que veem na rejeição uma autorização moral para o extermínio.
Esses são os verdadeiros psicopatas morais além de cornos em potencial — ainda que jamais tenham puxado um gatilho.
Vi o vídeo do suposto rival.
E pensei:
se minha mulher me traísse com alguém assim, a única coisa que eu diria seria que eu não sabia ter me casado com alguém de tanto mal gosto.
Eu me vingaria como sempre me vinguei:
escrevendo.
A escrita é a arma das pessoas pacíficas.
Entre a violência e a linguagem, ainda escolho a linguagem.