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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

EU NÃO DEVERIA SENTIR DESEJO VENDO ISSO…

 



 

O OLHAR QUE SE CONDENA

Minha primeira reação foi pensar que eu não deveria estar vendo o que vi.

Mas, ao mesmo tempo, surgiu uma sensação estranha: se eu não tivesse visto aquela fotografia, algo ficaria em suspenso — como se a própria existência daquele instante perdesse sentido. Como uma festa que eu deveria estar presente mesmo sem ter sido convidado.

 

O desejo tem dessas ambiguidades. Ele não pede licença moral antes de aparecer.

 


 

O DESEJO E A IMAGEM

Lembro-me de uma história antiga. Há uns quinze anos, flertava com uma garota. As câmeras não eram boas como hoje. Resolvi contratar um fotógrafo profissional — queria parecer melhor nas fotos para que ela me visse com outros olhos.

 

O desejo produz estratégias. Às vezes, até encenações.

 

Não deu muito certo. Depois das fotos, nos afastamos. Talvez eu não fosse tão bonito e gostoso quanto hoje. Ou talvez a imagem não substitua a presença.

 


 

A PALAVRA QUE ESCAPA

E então vi aquelas fotos recentes. Exceto uma, todas belas. Apesar do (excesso) de maquiagem. A maquiagem é inimiga das mulheres que são bonitas naturalmente. 

E sim, gostosas.  

 

“Gostosa.”A palavra veio antes do filtro. Antes do pudor. Eu nem sabia que era possível uma mulher, nessa condição — digamos, natural e peculiar — ser tão atraente assim.


Alguém poderia dizer: “Que vulgaridade chamar assim uma mulher que não é sua.”

Mas o desejo não respeita protocolos discursivos. Ele não consulta a gramática da conveniência. 

Às vezes, até um palavrão pode virar poesia — e até elogio — num momento de êxtase, quando sai da boca de quem se ama, de quem se deseja, de quem se tem carinho.

 

Talvez a verdadeira vulgaridade não esteja na palavra, mas na perda da atração entre duas pessoas que se desejam e fingem indiferença.

 


 

VERGONHA E EXCITAÇÃO

Há algo nesse misto de vergonha e excitação por sentir algo que talvez eu “não devesse” sentir.

Um constrangimento íntimo.

Uma culpa silenciosa.

 

Mas o desejo é, antes de tudo, um acontecimento. Ele não pergunta se deveria existir. Ele simplesmente acontece.

 

E talvez o mais honesto seja reconhecer isso — sem disfarce moral, sem teatralidade.

 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 13/02/2026
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