
O CAPITÃO DO MATO CONTEMPORÂNEO
O pobre de extrema-direita parece ser apenas uma reedição histórica da figura do capitão do mato — aquele que, pertencendo à mesma condição dos perseguidos, colocava-se a serviço do opressor. Há algo de estruturalmente repetitivo nisso.
O pobre que se coloca contra o Estado, mas reverencia o capital como se dele fosse herdeiro, encarna uma contradição quase caricatural — digna de um personagem de Chico Anysio. É a defesa apaixonada de um sistema que não o reconhece como protagonista, apenas como peça.
Quando alguém insinua que minha mãe teria “arrumado uma boquinha” para mim — ou que me sustenta integralmente — isso revela menos sobre mim e mais sobre quem fala. É a velha transferência psicológica: projeta-se no outro a própria insegurança. Aliás, se chegaram a essa conclusão, é devido a transparência da minha página.
Agora, eu desconfiaria de um juízo moral sobre alguém cuja trajetória se desconhece — não sabe como ganha a vida, como se sustenta, se já empreendeu, se já construiu algo, que não tem alto estima nem mesmo pra mostrar seu rosto, — talvez fosse prudente perguntar, como dizem os futebolistas: jogou onde para dar lição de moral? E não me surpreenderia se essa pessoa sobrevivesse, ela mesma, de algum auxílio.
E, a julgar pela ideologia que ecoa essa mentalidade de capitão do mato, sinceramente duvido da superioridade moral que alguns proclamam possuir.
A mensagem da vida de alguém é a própria vida — e aquilo que ela cria a partir dela. Se nada se constrói, se nada se produz, torna-se difícil comprovar que ali houve, de fato, vida plena.
Lembro-me do suposto “gênio” namorado de uma amiga. Segundo ela, dizia coisas brilhantes. Pedi então algum texto, alguma produção, qualquer manifestação concreta de sua genialidade para que eu pudesse conhecer. A resposta foi digna do final de Hamlet: silêncio.
O mundo está repleto desses gênios de si mesmos do mundo da tabacaria — intelectuais de balcão, eruditos de mesa de bar e livros de citação.
O pobre de extrema-direita é, talvez, o mais nefasto dos tipos políticos não por maldade intrínseca, mas por alienação da própria condição. Ele combate aquilo que poderia protegê-lo e defende aquilo que estruturalmente o explora.
É a negação de si mesmo como sujeito histórico. É a recusa em reconhecer a própria posição no tabuleiro.
E não há tragédia maior do que lutar contra os próprios interesses acreditando estar lutando pela liberdade.