O cachorro caramelo é uma instituição do folclore brasileiro. Praticamente toda família tem um — ou pelo menos conhece alguém que teve um, que por sua vez teve cria. Pois bem: uma dessas crias atravessou a minha caminhada hoje e latiu pra mim.
Eu, estoicamente, segui meu caminho, que era estreito. Logo outros cachorros vira-latas vieram se juntar ao caramelo — mas esses eram pretos mesmo. Todos latindo pra mim, e eu, não a “fiar”, como na música, mas a caminhar, sem esboçar reação nenhuma além do medo.
Nessa situação, nunca sei qual é a melhor atitude: chutar, pegar pedra, arrumar um pau… mas eu simplesmente não agi. Talvez o cachorro tenha percebido minha indiferença, se irritou e resolveu me morder.
Não cheguei a correr, mas acelerei o passo, sentindo a dor da mordida. Então chorei. Não pela dor — mas pela vergonha da situação. Cheguei em casa e fui direto tomar banho, porque fiquei sabendo que o cachorro morreu depois de me morder.
Calma. Essa última parte é invenção, antes que me acusem também de agressão ao Orelha. O caramelo continua livre, leve e solto para morder os transeuntes desatentos. Mas o choro foi verdadeiro.
O homem chora por diferentes situações.
Veja o caso do Sampaoli, técnico do Atlético. Ele treinava o Allan, um volante que adorava sair da posição. Um dia, esse comportamento irritou tanto o treinador que ele saiu pelo campo inteiro atrás do jogador pra dar uma bronca.
Foi um jogo de gato e rato, até que finalmente o treinador encontrou o atleta e disse, em portunhol dramático:
— Ontem yo assisti una película muy triste. Morriam hijo, mujer, marido… todos lós morriam. Pero yo no chorei.
Mas ontem, vendo o tape do jogo, de você saindo da posição de volante fijo… eu chorei muito.
O que é a morte diante de um volante que sai da posição e compromete o trabalho de um treinador que ganha um milhão de reais por mês, não é mesmo?
Tem choro que vem da alma.
E tem choro que vem da mordida do caramelo.