TRUMP, O APRENDIZ DE EPSTEIN

No filme O Aprendiz, do excelente diretor Ali Abbasi — disponível na Amazon — temos um retrato cru e incômodo da formação de Donald Trump e de sua ascensão. O longa não se ocupa de mitologia, mas de genealogia: quem Trump é não surge do nada; ele é fruto direto de um modo de vida.
Seu pai construiu fortuna no mercado imobiliário como um verdadeiro senhor de engenho americano: alugando imóveis precários a famílias pobres, muitas vezes incapazes de arcar com os próprios aluguéis. A miséria alheia não era um efeito colateral — era o modelo de negócio.
Trump foi educado nessa ética e apenas expandiu os métodos do pai. Não houve ruptura moral, apenas escala.
Jeffrey Epstein funcionou como viabilizador dos desejos mais obscuros de homens poderosos. Um operador de excessos. Um facilitador de orgias, tráfico de influência e exploração sexual — crimes pelos quais foi formalmente acusado e condenado.
A relação entre Trump e Epstein não é um detalhe acidental, mas estrutural: ambos compartilham a mesma desconsideração pela dignidade humana. O que um fazia com imóveis, o outro fazia com corpos.
Epstein pode ser lido como uma versão “financeirizada” do mesmo desprezo moral: um P. Diddy branco, conectado ao capital financeiro, à política e à impunidade sistêmica.
Existem alegações públicas e registros judiciais envolvendo Trump em acusações graves de abuso sexual. Não se trata aqui de condenação judicial — mas de um dado político e ético incontornável: o padrão de comportamento.
Trump nunca foi incoerente. Ao contrário: sua coerência é assustadora. Ele é o mesmo desde o início. Apenas subiu degraus. Como esperar empatia de alguém formado na exploração, quando se trata de imigrantes, negros ou vítimas da violência estatal?
Quem chama um ex-presidente de “macaco”, quem relativiza a violência policial, quem naturaliza a crueldade institucional, apenas revela fidelidade à própria origem.
Diante disso, a pergunta não é política, mas moral: que tipo de caráter é necessário para defender alguém assim? Que tipo de ética é capaz de relativizar tamanha ausência de humanidade?
Trump não é um desvio. É um sintoma. Um produto acabado de uma sociedade que confunde sucesso com brutalidade e poder com licença para tudo.