AMIZADE VERDADEIRA SÓ ENTRE HOMEM E MULHER

Contrariando o senso comum — esse mesmo que, como dizia Nelson Rodrigues, costuma ser burro —, a experiência concreta da vida frequentemente desmente a ideia de que não pode existir amizade verdadeira entre homem e mulher.
A prática cotidiana mostra algo bem diferente do que a moral social insiste em repetir.
O que se observa, em determinado momento da vida, é que quando as pessoas começam a namorar, e sobretudo quando se casam — e mais ainda quando têm filhos —, abandonam progressivamente suas amizades. Não apenas as amizades com pessoas do outro sexo, mas as amizades em geral.
Esse fenômeno revela o quanto o condicionamento social é forte e preponderante sobre as escolhas individuais. A vida familiar, com seus deveres, rituais e expectativas, frequentemente entra em conflito direto com os desejos do sujeito: paixões, hobbies, interesses, afinidades.
Ainda assim, a pressão por adequação faz com que muitos optem pela rotina familiar, mesmo quando ela não corresponde aos seus impulsos mais autênticos. Em outras palavras: hobbies e paixões são facilmente obliterados em nome da família.
Isso não significa que haja, necessariamente, mais amizade ou mais afinidade intelectual com o parceiro do que com antigos amigos. Na maioria das vezes, ocorre justamente o contrário. Ainda assim, abre-se mão dos amigos com uma facilidade impressionante em nome da estrutura familiar.
Há também o elemento físico e afetivo: impulsos animais, desejos e carências sentimentais que, em relações heterossexuais convencionais, costumam ser satisfeitos apenas pelo outro sexo. Esse dado, longe de negar a amizade entre homem e mulher, ajuda a explicar por que ela é vista com tanta desconfiança.
No fim das contas, tudo isso é profundamente coerente com a essência egoísta do ser humano: preservar aquilo que lhe garante estabilidade, status e aceitação social — ainda que isso custe o abandono de vínculos que, muitas vezes, eram mais vivos, livres e verdadeiros.