COMO ESCREVER MELHOR QUE UMA I.A (POR UMA I.A)
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Como eu ouso dar dicas de como escrever melhor que uma IA quando este próprio texto será, em alguma medida, escrito por uma IA? Quer dizer: escrito, porra nenhuma. Eu escrevo todos os meus textos. Ela, no máximo, corrige — e, muitas vezes, ainda consegue piorar o texto original.
Mas eu me dou esse direito porque, modestamente, sei escrever. Gramática é um dos assuntos que mais estudo. Já escrevi, inclusive, sobre ontologia da linguagem em alguns dos meus melhores textos. Então, minha primeira dica é simples:
Frases curtas — mas não preguiçosas. Parágrafos organizados. Escrita pensada como montagem de roteiro. O texto precisa, já na primeira frase, no primeiro parágrafo, deixar claro por que merece ser lido até o fim, por mais longo que seja.
Por isso, a estética importa. Desde a tipografia até o tamanho dos parágrafos. A pontuação — apesar de suas regras — pode ser entendida como placas numa estrada: elas organizam a cadência e o ritmo da compreensão, sinalizam como o autor deseja ser lido. É por isso que uso subtítulos e padronizo a formatação: para facilitar a leitura.
Quando falo em roteiro, falo de estrutura. Não apenas da forma, mas de um texto sem pontas soltas — como uma boa história, com começo, meio e fim.
Agressivo, de verdade, é quem reivindica a escrita apenas para si, usando o discurso contra a IA para privar quem não teve oportunidade de estudar da chance de escrever melhor. Pior ainda quando esses mesmos sujeitos não sabem escrever — e tampouco demonstram interesse em aprender.
São os famosos “não fode nem sai de cima”.
Uso essa frase vulgar de propósito. Apenas para demonstrar algo simples: uma IA jamais escreveria isso espontaneamente. Porque ela é incapaz de reproduzir a experiência humana da escrita.
Escrever é uma experiência sinestésica. Sensorial. Feita de repertório cultural, histórico, comportamental. Do modo como o mundo nos afeta. Do encontro entre uma obra — literatura, arte, cinema — e a nossa subjetividade. Do modo como isso nos atravessa e aumenta nossa potência de agir.
Desprovida de corpo, a IA também é incapaz de sentir a emoção que uma obra produz. No máximo, ela descreve bancos de dados sobre o efeito que humanos disseram sentir.
Assim como o computador, a IA é ferramenta. Uma vez, um cliente disse que eu não sabia escrever com papel e caneta, por causa da minha caligrafia ilegível. Mas por que caralho eu escreveria à mão hoje, se tenho um celular no bolso e um computador à disposição?
Por que eu gastaria tempo revisando minúcias gramaticais se posso terceirizar esse trabalho mecânico para uma ferramenta?
Mas aqui está o ponto crucial: terceirize o trabalho manual, nunca o intelectual. Nem o criativo.
Se quem pensa o texto é a IA, o autor não é você. É preciso distinguir quem escreve de quem apenas redige.
A armadilha está na velocidade. A comunicação instantânea das redes, a produtividade compulsória, a comodidade da correção imediata vão, aos poucos, corroendo nossa sintaxe, nossa ortografia, nossa capacidade de formular períodos longos, ideias mais densas.
Passamos a escrever já esperando que a IA resolva depois. Na correria. Na lógica do “não sou profissional mesmo”.
E é justamente aí que o texto perde força. Porque o detalhe, o acabamento, o corte fino — isso ainda é tarefa humana. E, normalmente, são essas as partes ruins quando delegamos demais.