A POLITIZAÇÃO DE DEUS

A fé, a religião e Deus sempre fizeram parte da política. Basta observar o slogan hipócrita do bolsonarismo — “Deus, Pátria, Família” — ou o deputado Nicolas dizendo que sua caminhada da vergonha teve motivação divina, desconsiderando completamente a tragédia natural que se abateu sobre o grupo.
Quem é contra ele, por sua vez, também recorre politicamente ao nome de Deus, mas no sentido oposto: para afirmar que a blasfêmia de Nicolas foi “punida”. Deus vira, assim, moeda de troca retórica nos dois lados da disputa.
É conhecida a estratégia dos religiosos de usar a fé como argumento de legitimidade para simplificar respostas sobre problemas complexos que eles não sabem — ou não querem — explicar. O desconhecido passa a ser simplesmente “vontade de Deus”. Seus adversários deixam de ser opositores políticos e se tornam inimigos divinos: serpentes, pessoas malignas, instrumentos do mal.
Mas raramente conseguem explicar racionalmente o porquê disso. E, ironicamente, com o ódio que proliferam, julgando-se bons e justos, afastam-se cada vez mais dos próprios ensinamentos que a religião — normalmente cristã — afirma defender.
Assim, Escola de Frankfurt, discussão de gênero, Paulo Freire e qualquer outro campo teórico que lhes desagrade deixam de ser tratados como divergências ideológicas legítimas e passam a ser rotulados como “mal metafísico”. Não são mais ideias políticas ou humanas a serem debatidas, mas forças demoníacas a serem combatidas.
Esse expediente simplifica o debate, porque dispensa qualquer necessidade de fundamentação. Eles não precisam explicar por que consideram essas ideias negativas para a sociedade. Basta invocar Deus e encerrar a questão.
Do mesmo modo, não conseguem sustentar, sem cair na hipocrisia, por que suas próprias convicções seriam necessariamente superiores. Deus torna-se, então, uma instância transcendental conveniente: argumento de autoridade para ganhar discussões sem ter que se aprofundar nas questões históricas e estruturais que realmente fundamentam qualquer pensamento ou ideologia.
Outro recurso recorrente é o uso de recortes bíblicos, feitos de forma completamente arbitrária, para justificar toda sorte de absurdos — inclusive posições que contradizem frontalmente a própria fé cristã.
Se for por esse caminho, certamente daria para encontrar versículos capazes de “justificar” até o Holocausto, o incesto ou a pedofilia praticada por santos padres. Texto sagrado transformado em salvo-conduto moral para qualquer coisa.
Por isso, quem usa versículo bíblico como se fosse citação intelectual ou argumento indiscutível já perdeu a discussão antes mesmo de começar.