I.A TEM ESTILO LITERÁRIO?

O estilo de um autor na literatura refere-se à maneira única e característica como ele expressa suas ideias, constrói narrativas e utiliza a linguagem para produzir efeitos específicos. É uma espécie de impressão digital literária — aquilo que permite reconhecer um escritor mesmo quando ele não assina o texto.
Por isso, é razoável afirmar: uma inteligência artificial não pode ter estilo. No máximo, pode copiar, imitar, recombinar. Estilo é prerrogativa humana.
A sensação generalizada que temos hoje diante da avalanche de textos produzidos por IA decorre da soma de dois fatores evidentes: a ausência de um estilo próprio e, justamente por isso, a clara percepção de que se trata de algo não humano.
As construções são corretas, mas inertes. As ideias são organizadas, mas sem risco. Falta-lhes aquilo que só a experiência humana produz: idiossincrasia e erro.
Quem abre alguns textos meus aleatoriamente percebe com facilidade as marcas que os enquadram como meus — mesmo que eu não os assine. Isso é estilo. Isso é voz.
Mais do que estilo, a inteligência artificial é incapaz de reproduzir algo ainda mais fundamental: a dignidade da experiência humana.
Qual prompt é capaz de gerar a história de alguém modesto, de poucas letras, que herda um pequeno frigorífico do pai e constrói um império no agronegócio? Ou do comerciante da periferia que prospera, abre supermercados e garante uma vida confortável aos filhos?
Não se trata de eficiência narrativa. Trata-se de vida vivida.
Que prompt reproduz a experiência de fracasso, vergonha, ambição, desejo, medo e perseverança condensados numa trajetória real? Que algoritmo devolve isso em forma de afeto, de linguagem, de arte?
É preciso distinguir escritores de textos e escritores de prompts humanos.
Outra prerrogativa exclusivamente humana é a capacidade de avaliar: não apenas a vida, mas valores, obras, ideias, pessoas. Filtrar, em meio ao turbilhão de circunstâncias, aquilo que dialoga intimamente consigo.
Separar o que convém do que é lícito. O que é fecundo do que é descartável. Em outras palavras: exercer juízo.
A IA pode gerar texto. Mas não pode escolher o que merece existir.