A “GERITOCRACIA” DO RECANTO DAS LETRAS

Não me levem a mal. Não tenho nada contra os mais velhos — inclusive, tenho alguns amigos que são. Especialmente aqui no Recanto das Letras. Aliás, acho até louvável que, em vez de estarem em ônibus lotados ou filas de banco em horário de pico, estejam aqui escrevendo. Embora o efeito social, no fim das contas, seja igualmente devastador.
É claro que há aqui uma pilhéria — e das conscientes. Kant só escreveu o que escreveu depois de velho e aposentado. Muitos dos autores que mais admirados aqui poderiam facilmente ser meus avós. São, portanto, a exceção que confirma a regra: escrever, na maioria dos casos, é uma vaidade de aposentado.
Nenhuma grande revolução cultural, veja bem, nenhuma inovação criativa decisiva, nasceu de pessoas em idade avançada. Sempre vieram dos jovens. Quando grandes obras surgem na velhice, é porque foram inauguradas na juventude e apenas aperfeiçoadas com o tempo.
O inverso também se confirma: assim como o espírito filosófico tardio de Kant se torna profundamente conservador, não é coincidência que a faixa etária predominante em manifestações pela abolição violenta do Estado Democrático de Direito seja composta, majoritariamente, por pessoas de idade avançada, saudosas da ditadura militar.
DECADÊNCIA E RENOVAÇÃO
A inovação artística e técnica sempre foi território dos jovens. A Nova Hollywood substituiu os dinossauros do cinema clássico, assim como a Nouvelle Vague varreu o cinema francês com cheiro de naftalina. Esses movimentos surgem sempre em momentos de decadência cultural — não para preservar, mas para romper.
Apple, Microsoft, Meta: todas são efeitos diretos da energia juvenil aplicada à técnica. Nenhuma nasceu do saudosismo. Nenhuma nasceu da nostalgia.
A experiência dos veteranos, quando bem empregada, não está em comandar o mundo novo, mas em pensar o mundo que os jovens irão criar — e viver.
É a velha imagem de enxergar mais longe por estar apoiado sobre os ombros de gigantes. Não para repetir seus passos, mas para ir além deles.