O EX-CRITOR E A I.A.

A arte é uma prerrogativa humana. Ela termina — ou ao menos muda de estatuto — quando começa a intervenção direta de uma inteligência artificial. Do mesmo modo, a moralidade é uma questão humana. A tecnologia, como a I.A., é apenas uma ferramenta: não distingue bem e mal, certo e errado.
Paradoxalmente, quanto mais avançada a ferramenta, maior se torna a responsabilidade moral de quem a utiliza. Não é possível atribuir à I.A. a culpa por decisões que continuam sendo humanas.
O PROBLEMA NÃO É A I.A., É…
Nas próximas eleições, veremos — muito provavelmente — uma enxurrada de informações falsas, imagens manipuladas e notícias fabricadas com auxílio de inteligência artificial. Mas isso não é um problema da máquina. É um problema humano. Dos criadores. Dos intermediários. Dos que lucram com a ferramenta sem qualquer compromisso ético.
A controvérsia envolvendo modelos que geram pornografia não consensual é exemplar. Qualquer pessoa pode ser vítima. Mas o escândalo não está no código — está na consciência de quem decide usá-lo. Falar em pornografia não consensual não é mais absurdo do que falar em escrita, poesia ou discurso não consensual. Em última instância, trata-se sempre de violência praticada por alguém através de um meio.
Censurar não é o caminho. Nunca foi.
Um exemplo claro disso é o Gorilacast, podcast satírico que ironiza o próprio formato do podcast contemporâneo. Dizer que ele “não é arte” por utilizar inteligência artificial é má-fé — ou inveja. Nesse caso, a I.A. faz exatamente o que sempre fez: serve como ferramenta.
O mesmo vale para o cinema, para a escrita, para a edição. Dizer que os recortes cinematográficos que produzo no meu Instagram (daveledave1991) são “fruto de I.A.” apenas porque a assinatura visual foi gerada com auxílio tecnológico é ignorar deliberadamente o gesto central: a curadoria, o olhar, o repertório.
Grande parte do negacionismo em relação à inteligência artificial nasce do medo ou do preconceito. Medo de perder privilégios simbólicos. Preconceito diante da democratização do acesso à informação.
Há quem tenha tido a chance de estudar, de se formar, de aprender a escrever — e agora se incomode com o fato de que outros possam acessar ferramentas que encurtam esse caminho. Há também profissionais medíocres protegidos por reservas de mercado: nutricionistas, advogados, coaches, personal trainers, que veem a I.A. calcular macros, estruturar treinos ou redigir textos jurídicos melhores do que muitos recém-formados.
A cultura acaba quando aparece em peça jurídica, da mesma forma que o meme acaba quando a Claudia Leitte começa a compartilhar.
Ironia é que esses mesmos críticos continuam usando computadores, editores de texto, softwares de edição — sem jamais reconhecer que a I.A. é apenas mais uma etapa dessa mesma história tecnológica.
Eles desconhecem o poder da edição. Cortar palavras. Ajustar ritmo. Clarificar ideias. Nenhum grande filme existiria sem um bom editor. Um diretor renomado entregaria facilmente dez horas de material bruto — insuportável para qualquer espectador.
A arte precisa da edição para conciliar intenção e forma, artista e público.
Até onde sabemos, a inteligência artificial ainda não escreve Ulisses, não cria Clarice Lispector, não concebe um sketch dos Monty Python. O que ela faz é ampliar desigualdades: quem sabe usar a ferramenta potencializa sua produção intelectual; quem se recusa a entendê-la perde espaço — às vezes até para o robô.
No fim, o mais curioso é ver os reacionários culturais perderem lugar criativo não para artistas melhores, mas para máquinas. Não porque a máquina seja genial — mas porque eles pararam no tempo.
Texto escrito e dirigido por uma inteligência artificial — mas redigido por mim.