O ESCRITOR AMEAÇADO DE MORTE
— EI, H. P. LOVECRAFT!
Como numa rua escura, eu estava iluminado apenas por um poste de luz. Só havia eu. Quando me virei para trás, ele continuou:
— Sim, você mesmo, Lovecraft. Com essas suas histórias de terror, lá naquele seu site, La Davia?. Você não conseguiu pensar em título melhor para sua página, um mais homossexual? Francês com inglês, duas vezes — talvez pra mostrar duas vezes como você é irrelevante e sem talento?
— E ainda se acha um Thomas Mann? Um William Faulkner? La Davia, pra mim você não é nem mesmo um Stephen King, com essas histórias de terror abjetas sobre a sua própria vida.
— Ouve bem — ele continuou: se eu ouvir qualquer relato no seu site de terror sobre a minha namorada, eu passo com meu caminhão em cima de você! Você só escreve. Você não fala?
— Eu…
— Você não é homem de ação?
— Eu sou diferente de vocês, homens de ação. Eu escrevo para não agir. A ação entrega muito menos que o pensamento, e o pensamento muito menos que a escrita.
— Ah, o infeliz ainda acha que é poeta! Nada de poesia sobre a minha mulher. Balzac — ou eu devo dizer Prozac?
— E a ameaça vale até pros textos de humor?
— Especialmente pros textos de humor! O riso — até eu, um homem de negócios, sei — é um afrodisíaco natural. Um Cialis feminino. Se você postar humor, eu te fuzilo com essa máquina de registrar preços até não sobrar espaço nenhum. Tudo com o valor módico de 99 centavos.
— Meu caro, você não vai querer gastar com tanta impressão comigo… E haicai, eu posso postar haicai?
— Não! Tamanho não é documento. Os melhores perfumes e os piores venenos estão nos frascos menores. Como dizem: mais vale um pequeno brincalhão do que um grande bobalhão. Nada de haicai ou poetrix. Aliás, me dá aqui sua pena!
— Cara, eu não uso pena. Ninguém escreve com pena mais.
— Ah, sim, bem lembrado… então me dá o celular.
— Nesse caso, isso se configuraria furto!
— Pra quem está sendo ameaçado de morte, você até que é bem corajoso! Você acha que mais um BO me intimida? Eu sobrevivi aos impostos do Brasil. Acha que tenho medo da polícia?
— Ok, ok… eu entendi. Eu entendi. No more writer. Há alguma coisa que eu possa escrever?
— Sim. Pode elogiar o governo Bolsonaro. Santa Catarina. Mulher inteligente alguma seria sensível a isso.
