O BEIJO DO HOMEM-ARANHA DA VIDA REAL
Eles cresceram juntos. Sempre se gostaram — mas apenas agora o amor havia se tornado iminente, tangível, quase palpável. Não porque algo tivesse mudado entre eles, mas porque ele, enfim, decidiu escrever. Verbalizar o que sempre esteve ali, latente, suspenso no ar.
Na manhã seguinte, partiria. Fugiria da ilha onde ambos nasceram — num gesto que era, ao mesmo tempo, lucidez e deslocamento. Talvez uma fuga à la Truman, para ilhas Fiji, embora esse seja outro filme, outra história. Ali, nada o prendia, a não ser a ilusão de permanência e a ainda mais perigosa ilusão de amor.
Antes de ir, deixou a carta.
Ela a leu com lágrimas nos olhos — sobretudo nos trechos finais. Dizia assim:
“Sentimentos dúbios invadem meu corpo de tal forma que me vejo privado de mim mesmo. Sou forçado a prestar contas do meu estado de ânimo, certo de que, ainda que eu fosse o maior poeta que já pisou nesta terra, fracassaria vergonhosamente nessa tarefa.
Ódio e amor se misturam em meu âmago. Ambos habitam em mim com igual intensidade — mas dizer apenas isso seria insuficiente. Porque, ao tentar nomear o que sinto, esbarro nos limites da linguagem. E é daí que nasce o meu ódio: ódio da linguagem. Ela é a maior inimiga dos grandes sentimentos, e agora se coloca como minha principal adversária.
Como usar seus mecanismos precários para descrever essa falta de ar no peito que me sufoca por dentro, acompanhada da certeza de que o ar de que preciso está fora do meu alcance — como um astronauta perdido no vácuo, sem equipamento, à deriva? Não. Nem os poetas dão conta disso em seus versos.
Poucas pessoas seriam capazes de dizer ‘eu te amo’ a alguém que, embora tão próximo, nunca chegou a conhecer de verdade.
E, no entanto, basta escrever o seu nome para que algo em mim se aquiete. Curiosos os artifícios do amor, que concedem prazer até mesmo àqueles que sofrem por amar.
Mas essa covardia a sociedade não acrescentará à minha lista de erros.
Eu te amo.”
Ler a carta foi como se o escuro tivesse ficado claro. Todas as pessoas erradas com quem ela se envolvera, e a correta, verdadeira, estivera sempre ali — e, de certa forma, ela sempre soubera. Só agora tinha certeza. Foi como ser salva de um grupo de assaltantes num beco escuro e chuvoso: o Homem-Aranha a deixava em segurança.
Mas agora, depois do “eu te amo”, ele planejava partir na manhã seguinte.
Por isso, ela saiu correndo naquela chuva torrencial para ir até a casa dele, não tão longe dali.
Enquanto isso, ele assistia ao seu filme predileto. Para sua frustração, justamente na cena favorita — aquela em que o Homem-Aranha salva Mary Jane — o sinal caiu por causa da chuva. Ele sabia exatamente o que aconteceria depois. Uma cena clichê, perfeita demais para ser perdida.
Colocou a máscara do Homem-Aranha — “por causa da chuva”, dizia a si mesmo — e subiu ao telhado para consertar a antena. Lembrando do caso trágico do Gugu, amarrou uma corda nas pernas.
Ao apertar o último parafuso, o pé escorregou por causa da água. Caiu. Mas foi salvo pela corda — como se fosse uma teia. Ficou pendurado, de cabeça para baixo, a chuva caindo, a máscara no rosto, gritando:
— Ei! Ajuda! Ajuda!
Foi quando ela chegou, ensopada. Reconheceu a voz antes mesmo de raciocinar. Lembrou-se da carta e disse apenas:
— Dave… o que…
Ele, de ponta-cabeça:
— Vivian… eu estava consertando o telhado. Resolvi dificultar: fazer de ponta-cabeça e vestido de Homem-Aranha. Gosto de desafios.
Ela riu. Aproximou-se.
Abaixou a máscara. Só até a altura dos lábios.
Como se fosse Mary Jane, ela o beijou.
Diferente da cena icônica do cinema, nenhum filme registrou aquele beijo. Apenas este texto.
Nesse instante, o sinal da televisão voltou — e na tela surgia exatamente a cena em que Mary Jane beija o Homem-Aranha.
