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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

O LEITOR DO RECANTO DOS RECANTOS

 


 

DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 


 

Ele era um leitor contumaz do Recanto das Letras. Não exatamente um amante da leitura — pelo menos não no sentido clássico —, mas foi ali que encontrou um tipo de escrita que lhe parecia familiar. Poemas simples, textos truncados, erros grosseiros de português. Longe de afastá-lo, isso o aproximava. Havia ali algo que lhe soava íntimo, quase doméstico: uma escrita que errava como ele errava.

 

Tinha uma conta no site, mas raramente escrevia. Seu prazer estava no comentário, no gesto breve de aprovação, no elogio protocolar. Escrever dava trabalho demais. Exigia pensar. E ele sentia, no fundo, que não tinha nada realmente a dizer. Além disso, como ousar competir com tantos “talentos” que habitavam aquele espaço? Autores que ele não sabia nomear, mas que lhe pareciam superiores simplesmente por estarem ali.

 


 

A ILUSÃO DO CÍRCULO LITERÁRIO

No íntimo, ele não via muita diferença entre os textos do Recanto e os desabafos do Facebook. Mas a palavra “letras” exercia um fascínio especial. Dava-lhe a sensação de pertencer a um círculo restrito, quase uma maçonaria literária. Um lugar onde se falava difícil, se errava bonito e se escrevia muito sobre nada.

 

Criou, então, um repertório próprio de comentários: elogios genéricos, emoticons estratégicos, frases prontas. Tornou-se reconhecido por isso. E, ironicamente, seus próprios textos — que ele julgava insuficientes — passaram a receber mais atenção do que esperava.

 

Passava horas navegando pelo site. Como efeito colateral, seu vocabulário empobreceu. Começou a errar concordâncias, misturar tempos verbais, perder precisão. Mas isso não o incomodava. Afinal, ali ninguém parecia se importar muito com forma. O importante era parecer profundo — mesmo quando não se dizia nada.

 


 

A DUPLA VIDA

À noite, longe da tela, vivia outra existência. Frequentava clubes sadomasoquistas, onde preferia sempre o papel da submissão. Couro, látex, silêncio, ordens secas. Um ritual tão metódico quanto suas leituras noturnas.

 

O psicólogo lhe disse uma vez que não havia contradição alguma ali. Que aquele hábito e sua devoção ao Recanto pertenciam à mesma lógica: a busca por entrega, por dissolução da própria vontade, por ser conduzido por algo maior — fosse um texto mal escrito ou uma dominatrix experiente.

 

Talvez fosse isso, no fim das contas. O prazer de abdicar. De não escolher. De ser conduzido por uma linguagem que nada dizia, mas que ainda assim o fazia sentir parte de algo.

 

 

 

 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 28/01/2026
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