E DEUS CRIOU O AUTOR
“Não discuto
Com o destino
O que pintar
Eu assino”
— Paulo Leminski
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Sempre me pergunto quem foi o primeiro homem — ou talvez um australopiteco — que, diante de uma obra própria, percebeu que aquilo que havia criado era bom e decidiu assiná-la. Como quem diz ao mundo: “isso é meu”. Eu sou o autor. Esta é a minha marca.
Na era da transmissão oral, essa pergunta sequer existia. Não importava quem havia criado a história, mas a história em si. O autor era irrelevante; o mito sobrevivia por si mesmo.
Em um documentário já lendário, Martin Scorsese define o autor como aquele que pega o dinheiro de quem deseja lucrar — os produtores — e o transforma em obra de arte. Essa tensão entre o desejo do capital e a vontade do artista é o verdadeiro motor da criação moderna.
Esse conflito é o núcleo do que Gilles Lipovetsky chamou de capitalismo artístico: uma era em que a estética, a criatividade e a autoria passam a ser mercadorias centrais.
A partir da revolução cultural de 1968, o capitalismo decidiu comprar aquilo que antes o enfrentava: a criatividade dos artistas boêmios. E muitos boêmios, seduzidos pelas promessas do consumo, venderam sua arte para entregar produtos, soluções e experiências.
Desse pacto surgiram o computador pessoal, o Macintosh, o Windows, o smartphone, o Facebook. A criatividade foi incorporada ao sistema como motor de inovação — e também de controle.
Talvez por isso nada nos cause mais ojeriza do que os agentes do mercado financeiro que acumulam fortunas sem produzir absolutamente nada de útil ou belo. Suas operações não criam obras, não deixam rastros simbólicos — apenas tornam o mundo mais feio, mais abstrato e mais cínico.
Nesse sentido, o empreendedor se aproxima vagamente do artista: ele cria algo que o ultrapassa, gera empregos, serviços, estruturas. Ainda que não produza beleza no sentido platônico — a ideia do belo, como em Fedro — ele ao menos cria.
Na vida, como na arte, há os que vivem de modo autoral — aqueles que assinam a própria existência — e há os que apenas reproduzem caminhos já trilhados: herdados dos pais, dos avós, ou até de ancestrais mais distantes.
Alguns, tristemente, vivem segundo padrões que sequer são humanos, mas anteriores, dos chimpanzés. Vivem sem autoria. Sem assinatura.
Ser autor, afinal, não é apenas criar uma obra. É assumir a responsabilidade estética e ética pela própria vida.