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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

O DIABO SÓ É VELHO, E NÃO SÁBIO

 


 

DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 


 

“Pobre Rei Lear”, disse o bobo da corte — envelheceu, mas não ficou sábio.

 

Recebi um comentário por e-mail, naquele texto em que brinco que não sou trans nem macumbeiro, dizendo que, se não sou nenhum dos dois, devo ser velho — porque sei demais. Outro belo elogio. Afinal, como disse Jean-Paul Belmondo em Acossado, ao ser perguntado se poderia dar uma entrevista sobre o futuro dos jovens: “Não. Eu gosto dos velhos”.

 

Ou, como aconselhava Nelson Rodrigues: jovens, envelheçam.

 


 

O TEMPO E A EXPERIÊNCIA

Continuo essencialmente o mesmo: os mesmos gostos, as mesmas idiossincrasias da adolescência — talvez até da infância — apenas acrescidos de tempo, experiência e repertório. O mais sábio dos seres, arrisco dizer, seria aquele que conseguisse unir a lucidez do ancião à visão de mundo da criança. Nietzsche chamou essa figura, em Assim Falou Zaratustra, de além-do-homem.

 

Mas há também os que envelhecem como o Rei Lear: acumulam anos, mas não aprendem nada sobre o sol.

 

Em O Curioso Caso de Benjamin Button, Fitzgerald é brilhante ao narrar a história de um homem que nasce velho e regride até se tornar um bebê. O gênio do conto está no ponto de interseção: Benjamin e a mulher que nasceu no mesmo período encontram-se no meio da vida com a mesma idade biológica. Ali se apaixonam. Ali se reconhecem.

 

Isso demonstra que envelhecer não é apenas uma questão de tempo cronológico, mas de experiência vivida.

 


 

MEMES, VAIDADES E FASE BOA

Antes de entrar no BBB 26, Edílson Capetinha já era meme ao afirmar que, em sua melhor fase, jogou mais que Cristiano Ronaldo.

 

O mesmo raciocínio vale para o ex-jogador do Atlético Mineiro que disse que, se jogasse sempre como naquele clássico em que marcou três gols contra o Cruzeiro, estaria no Real Madrid fazendo gols contra o Barcelona — e não ali.

 

Vaidade tardia. Glória imaginária. Autoengano confortável.

 


 

ESCREVER NÃO É SABEDORIA, É IDENTIDADE

Da mesma forma, eu não escrevo o que escrevo porque sou mais sábio. Escrevo porque sou velho.

 

Comecei a ler, estudar, ver filmes e escrever de maneira relativamente sistemática desde os 16 anos — com pausas poéticas, é verdade — e nunca mais parei. Não faço isso por obrigação. Tampouco porque “conhecimento é poder”, ainda que ele conceda uma distinção social clara: na fala, no discurso, no porte, na abstração, no raciocínio.

 

Faço porque é identidade. Porque me dá prazer. Como a criança que brinca sem finalidade.

 


 

UMA FASE BOA

Acho que venho fazendo um bom trabalho para quem acompanha esta página do Recanto das Letras. E, parafraseando Edílson e Casares: na fase boa, ninguém escreve melhor do que eu — sou meu escritor predileto, ao menos aqui dentro.

 

Mas sejamos honestos: se eu fosse um escritor de verdade, estaria escrevendo Finnegans Wake, O Som e a Fúria ou Os Irmãos Karamázov. Não estaria aqui.

 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 27/01/2026
Alterado em 27/01/2026
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