UM CINEMA NOVA-IORQUINO BEM FRANCÊS

Nem só de Barbie vive o cinema. Antes de se tornar um fenômeno pop global, Greta Gerwig esteve profundamente ligada a um movimento muito mais silencioso, intimista e autoral: o cinema independente nova-iorquino, frequentemente associado ao mumblecore.
Gerwig — casada com Noah Baumbach — ajudou a consolidar esse movimento ao lado dele, um cinema fortemente influenciado por John Cassavetes: filmes de baixo orçamento, diálogos naturalistas, foco em personagens jovens, relações afetivas imperfeitas, ritmo lento, contemplativo, muitas vezes improvisado.
Noah Baumbach, em parceria com Greta, dirigiu Frances Ha, filme que se tornou quase um manifesto estético desse movimento. Greta protagoniza a obra, encarnando a jovem artista errante, emocionalmente desajustada, mas viva — sobre o qual já escrevi, e cuja resenha pode ser lida aqui:
https://www.recantodasletras.com.br/cronicas/7982501
Mais tarde, Baumbach dirigiria História de um Casamento, com Adam Driver e Scarlett Johansson, levando essa sensibilidade intimista a um público muito mais amplo — sem abandonar completamente sua raiz autoral.
Esse cinema nova-iorquino sempre me remete a uma época específica da minha vida: sair do trabalho e ir direto ao cinema na Avenida Paulista, especialmente ao Reserva Cultural. Filmes pequenos, discretos, que não pediam espetáculo, apenas atenção.
Lembro-me de um deles — embora minha memória possa falhar, e eu não vá pesquisar para não matar a espontaneidade da lembrança. A história se passava em Nova Iorque (Acontece em Nova Iorque): uma jovem rica, filha de uma artista renomada, decide sair de casa para buscar inspiração própria.
Ela passa a morar em lugares baratos, convive com pessoas excêntricas, tipicamente nova-iorquinas — algo que, de certa forma, lembra São Paulo — e se coloca em situações inusitadas que, aos poucos, constroem seu aprendizado.
No final, ela exibe um filme experimental justamente na casa luxuosa da mãe. Um gesto simples, quase silencioso, mas carregado de sentido.
É preciso fazer mais cinema assim: independente, combativo sem ser panfletário, natural sem ser banal, artístico sem ser hermético.
Um cinema que não seja explicitamente politizado, mas tampouco alienante. Como nos bons tempos da Nouvelle Vague, do neorrealismo de De Sica, de Rossellini — filmes simples, poéticos, baseados nos dilemas da vida cotidiana, nas relações humanas, em diálogos o mais naturais possível.
Um cinema que herde, ainda que por empréstimo, o velho lema do Cinema Novo brasileiro: não como slogan, mas como ética.
CÂMERA NA MÃO. UMA IDEIA NA CABEÇA.