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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

A SUPOSTA IGNORÂNCIA DO POBRE — POLÍTICA E MORAL

 


 

DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 


 

Uma das maiores falácias do debate político brasileiro é a ideia de que o pobre “não sabe votar”, de que é alienado, apolítico ou incapaz de deliberação racional. Essa crença costuma vir acompanhada de preconceito regional: quando o Sudeste vê seu candidato derrotado, rapidamente transfere a culpa ao Norte e ao Nordeste, recorrendo ao argumento raso de que “o pobre vota para não perder benefício”.

 

Para mim, quem mais depende do Estado não é o pobre, mas o político profissional. Sem o Estado, grande parte deles não sobreviveria no mercado que tanto dizem defender, nem na iniciativa privada que romantizam.

 


 

O PRAGMATISMO DO SOBREVIVER

O pobre vota com um pragmatismo racional impressionante. Ele olha para a sujeira estrutural do jogo político e pensa: “deixa eu ver o que sobra pra mim”. Se todos os políticos inevitavelmente saem ganhando, ele escolhe aquele que, ao menos, deixa algum resíduo material concreto.

 

Não importa se esse dinheiro será usado no jogo do tigrinho, na cachaça, na ampliação do barraco, na construção de mais um cômodo do sobradinho ou na compra de uma cesta básica. Trata-se de uma deliberação objetiva: dentro de um sistema injusto, qual decisão maximiza minhas chances de sobreviver?

 


 

POLÍTICA COMO JOGO DE SOBREVIVÊNCIA

Existem jogos de terror consagrados chamados survival horror, clássicos como Resident Evil, Silent Hill. Neles, o jogador enfrenta um cenário apocalíptico com recursos extremamente limitados. O inventário é pequeno, cada item importa, cada decisão tem peso. Sobrevive quem administra melhor a escassez.

 

O pobre faz exatamente isso com a política. Ele administra recursos políticos tão limitados quanto seu inventário existencial. Dentro das circunstâncias impostas por um apocalipse social permanente, a pergunta não é “qual candidato é moralmente superior?”, mas sim: “o que sobra pra mim?”

 


 

FELICIDADE, SIMPLICIDADE E DECISÃO POLÍTICA

A capacidade de ser feliz com pouco — com o dinheiro da cerveja, do churrasquinho, do encontro no fim de semana — também é uma decisão política. E profundamente racional.

 

Epicuro já ensinava que a capacidade de extrair prazer do simples é uma das maiores virtudes humanas. Como essas garotas que se "emocionam" ao andar de ônibus pela primeira vez, não por ignorância, mas por experiência concreta do mundo.


 

 


 

QUEM É O IGNORANTE?

Diante disso, resta a pergunta incômoda: quem é, afinal, mais ignorante politicamente? O pobre, que decide com base na sobrevivência real? Ou o rico, que vota movido por abstrações morais enquanto nunca sentiu o peso concreto da escassez?

 

 

 

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 26/01/2026
Alterado em 26/01/2026
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