A INDÚSTRIA DA MAGREZA
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Virginia tem, inegavelmente, um corpo bonito. Isso, porém, não a transforma automaticamente em uma pensadora contemporânea. O episódio recente envolvendo a exposição do relatório psicológico de sua filha de três anos — no qual a criança teria se descrito como “barriguda” — é revelador. Não se trata aqui de julgar intenções, tampouco de especular o tom da fala da criança, mas de reconhecer que esse tipo de informação jamais deveria ser divulgado de forma leviana.
O caso funciona como diagnóstico social. Vivemos em uma cultura que glorifica a magreza e escarra no sobrepeso — ainda que, ironicamente, mais de 50% dos brasileiros estejam acima do peso e cerca de 80% apresentem IMC elevado. Ao mesmo tempo, menos de 10% da população frequenta academias. A contradição é estrutural.
Esses números não surgem por acaso. São fruto de um modo de viver desadaptativo, jamais selecionado pela evolução: oferta abundante de calorias ultraprocessadas combinada a um cotidiano profundamente sedentário. O corpo humano não foi feito para isso.
Nesse cenário, cresce a busca pelas chamadas “canetinhas emagrecedoras”, vendidas como atalhos para o padrão estético vigente. Como o tratamento é caro, o contrabando floresce. A promessa é simples: emagrecer sem mudar o modo de vida. O custo, porém, é alto.
O emagrecimento medicamentoso, quando mal indicado, impõe ao indivíduo uma ingestão calórica abaixo até mesmo da taxa basal de manutenção. Emagrece-se, sim — mas à custa de carências nutricionais, perda de massa magra, prejuízo metabólico e sofrimento psíquico. Sem mudança comportamental, sem aumento do gasto energético diário, o resultado costuma ser previsível: magreza temporária, saúde fragilizada e bolso esvaziado.
Não se trata de glorificar o sobrepeso, tampouco de celebrar o emagrecimento imposto, rápido e patológico. Não há atalhos sustentáveis para a saúde.
Tampouco se trata do espetáculo e da exibição mórbida da magreza, como em “Um Artista da Fome”, conto de Kafka, no qual ele narra a história de um homem que exibe sua capacidade de ficar longos períodos sem comer como uma atração circense, trancado em uma jaula.
“As pessoas não sabem, mas para mim é fácil ficar sem comer”, diz o artista, que se compraz nos aplausos que sua arte cadavérica lhe proporciona. Até que, ao final, revela a verdade brutal: “é que eu nunca encontrei um alimento de que gostasse”.
Kafka escreveu esse conto quando ele próprio estava doente e extremamente magro, em razão de um tumor na garganta que, anos depois, ceifaria sua vida. A ingestão de alimentos lhe era difícil e dolorosa; por isso, muitas vezes preferia não comer.
Dieta, movimento e rotina continuam sendo o caminho — ainda que, em casos específicos, a medicação possa atuar como suporte, jamais como panaceia.
A crise da indústria da magreza, contudo, também revela outra fratura: a formação médica no Brasil. Relatórios recentes e declarações do próprio Ministério da Educação indicam que, se existisse uma “OAB da Medicina”, grande parte dos formandos não seria aprovada.
Médicos mal formados tendem a tratar sintomas, não causas. Em vez de enfrentar o modo de vida que produz a doença — a única cura real — recorrem à medicação como emplasto universal. Essa limitação técnica frequentemente se reflete no próprio corpo e no estilo de vida desses profissionais: plantões intermináveis, privação de sono, ciclo circadiano desregulado, comida industrializada substituindo refeições de verdade, e uma relação cotidiana com fármacos que espelha aquilo que prescrevem.
Não por acaso, as maiores crises recaem justamente sobre áreas sensíveis: pediatria, ginecologia e saúde mental. Ou seja, os campos responsáveis por cuidar das crianças, das mulheres e do equilíbrio psíquico da população.