“UMA BATALHA APÓS A OUTRA” — QUANDO TRUMP DEIXA DE SER FICÇÃO
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BRInfelizmente, quando a realidade passa a imitar a ficção, já não estamos diante de um jogo estético, mas de sua inversão trágica. Não é mais a ficção baseada na realidade — é a realidade degradada ao ponto de parecer um mau roteiro.
No novo filme de Paul Thomas Anderson, Uma Batalha Após a Outra, um dos favoritos a diversas categorias do Oscar — ainda que distante do auge artístico do diretor — acompanhamos o grupo revolucionário French 75. O coletivo atua libertando imigrantes detidos, atacando símbolos do poder estatal e enfrentando instituições autoritárias por meio de ações diretas: bombas, invasões, confrontos físicos.
Baseado em Thomas Pynchon, autor que Anderson já havia adaptado em Vício Inerente, o filme constrói sua tensão a partir do embate entre o grupo insurgente e o aparato militar, encarnado pelo personagem interpretado por Sean Penn.
O coronel vivido por Penn é uma síntese inquietante do militarismo clássico do cinema americano: ecos de Kubrick, de Dr. Strangelove, de Nascido para Matar. Penn — ator subestimado justamente por sua naturalidade brutal — constrói o personagem sem caricatura, ao contrário do excesso performático que marcou certos papéis tardios de Al Pacino, como Scarface e Perfume de Mulher.
O detalhe mais perturbador, porém, não é sua ideologia, mas seu fetiche: o desejo sexual pelas mulheres negras, especialmente pela líder do grupo revolucionário. Esse desejo o leva a relativizar a própria violência institucional, chegando a envolvimentos que rompem a lógica disciplinar que ele mesmo representa.
Nada disso, contudo, chega perto da brutalidade da realidade recente. A notícia de que agentes da polícia migratória dos Estados Unidos — sob a política de Trump — executaram um enfermeiro desarmado, já imobilizado, com diversos tiros sem misericórdia, expõe o abismo entre ficção e mundo.
As imagens mostram o homem no chão, agredido, neutralizado. A suposta arma só aparece muito depois. Ainda assim, a versão oficial fala em legítima defesa. Um discurso velho, gasto, cínico.
Vejam, quem tiver estômago, no YouTube da Band, neste link: https://youtu.be/PIua-GsV7r0?si=OM7cyjxN41qiINW7
Alex — cidadão americano, não latino, não imigrante — foi morto não por ameaça real, mas por se tornar inconveniente. Executado em um país que se diz democrático, por agentes que se veem autorizados a decidir quem merece viver. Trump, por sua vez, elogiou a ação e chamou a sua polícia de Patriotas.
Hannah Arendt analisou a banalidade do mal como o resultado da obediência burocrática: pessoas comuns cometendo atrocidades em nome da função. Mas a pergunta que se impõe hoje é outra: e quando o mal não é banal, mas desejado?
Quando enfermeiros manipulam medicamentos para matar pacientes e observam o resultado com prazer, como noticiado recentemente. Quando sacerdotes buscam o altar como acesso ao abuso. Quando policiais escolhem a farda como licença para executar, como a política de Trump ou do governador do Rio de Janeiro.
Até que ponto esses agentes não entram nessas instituições justamente para dar vazão ao seu impulso destrutivo?
Em certos momentos, o mal não é administrativo, nem acidental, nem banal. Ele é absoluto. Deliberado. Exercido com gozo.
“O horror, o horror”, como escreveu Joseph Conrad em Coração das Trevas. Não como metáfora distante, mas como diagnóstico preciso do presente.