OPINIÃO NÃO DEVERIA SER IGUAL A C*
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Minha impressão é que, a cada vez que consumo determinados conteúdos, eu fico um pouco mais burro. As entrevistas recorrentes de Abel Ferreira, técnico do Palmeiras, são um bom exemplo: desculpas em série, retórica de coach, desvios constantes das perguntas e nenhuma satisfação real ao torcedor.
Há método nessa loucura. É exatamente o mesmo método usado por políticos em debates: não responder, contornar, ocupar o tempo e sair ileso.
Ainda no futebol, Arnaldo Ribeiro — frequentemente confundido com Tironi, como se fossem irmãos siameses do ressentimento São Paulino — já declarou que levou muito tempo até ganhar o direito e legitimidade para opinar na televisão.
Hoje, essa realidade mudou radicalmente: todo mundo tem opinião. Igual traseiro. E, como acontece com muitos traseiros, há opiniões que parecem sair exatamente de lá — e não da cabeça.
Como já disse o Professor Villa, até na mídia especializada proliferam analistas que oferecem o que chamo de anti-opinião: frases inofensivas, óbvias, superficiais. “O céu é azul.” “Se está escuro, pode chover.”
Nenhuma análise de conjuntura, nenhuma tentativa de compreender o objeto a partir de um método minimamente refinado — seja sociológico, histórico ou epistemológico. Se for para dizer o óbvio, talvez seja melhor ficar em silêncio.
A opinião perdeu valor justamente pela inflação de opiniões desqualificadas. Em meio à enxurrada, torna-se cada vez mais difícil filtrar o que é relevante do que é apenas ruído.
Houve um tempo em que a ESPN levava a sério seu slogan: “Informação é nosso esporte”. Na era Trajano, o canal reunia gente como Mauro Cezar, PVC, João Alburquerque, Lúcio de Castro, Juca Kfouri, Calçade.
Pessoas com opinião. Pessoas que valia a pena ouvir.
Hoje, informação virou entretenimento. O esporte virou performance. Liguei a ESPN no horário de almoço outro dia e senti vergonha alheia. O que um jornalista precisa fazer hoje para pagar o leite das crianças é, muitas vezes, virar palhaço.
Lembrou-me os travestis parados no retão aqui perto de casa — não por desprezo, mas pela analogia brutal da sobrevivência — e aquele episódio do Porta dos Fundos, O Travesti da Firma, em que um colega flagra o outro trabalhando na zona porque “o filho só quer comer bolacha Negresco”
Nos meus textos, tento ao menos oferecer uma opinião original e autêntica. Ainda que, no mar de banalidades que compõem a opinião pública, a minha não tenha legitimidade institucional.
Mas terá valor para quem ainda consegue reconhecer uma opinião que nasce do pensamento — e não do traseiro.