O SER HUMANO SEMPRE AMOU O BBB
DAVELEVEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BREstamos na edição 26 do Big Brother Brasil!
Isso significa que essa palhaçada dura, no Brasil, exatos 26 anos.
Se considerarmos que estamos em 2026, é praticamente desde o ano zero do século XXI. Mas o anseio humano por observar a vida alheia é muito mais antigo do que qualquer reality show.
No Brasil, antes mesmo do BBB, tivemos a Casa dos Artistas, precursora de uma miríade de formatos que hoje vão da obesidade mórbida às cirurgias de risco, da promiscuidade televisiva em ilhas paradisíacas a pessoas nuas sobrevivendo em selvas, competições gastronômicas, casais confinados com sogras e toda sorte de aberração que encontra seu próprio freak show para chamar de seu.
Não por acaso, o nome Big Brother vem diretamente de George Orwell. O “Grande Irmão” do romance não parecia tão distópico à época. Hoje, soa quase ingênuo. O desejo voyeurístico acompanha a humanidade desde sempre.
Yuval Noah Harari, em Sapiens, descreve três grandes revoluções que moldaram a história humana: a cognitiva, a agrícola e a científica. A revolução cognitiva, ocorrida há cerca de 70 mil anos, possibilitou linguagem, cultura e narrativa. Ainda assim, ela é insignificante quando comparada ao tempo evolutivo do Homo erectus, a espécie humana que mais tempo permaneceu sobre a Terra.
Se algo aprendemos com a História é que ela insiste em se repetir. Este texto trata justamente disso: da História como uma eterna comédia de erros, sempre retornando às mesmas formas.
Nietzsche identificou no surgimento de Sócrates e de sua dialética um sintoma da decadência da sociedade grega. Antes disso, a Grécia havia criado o teatro, a tragédia e a comédia, além da ágora — espaço público de debate. Mas o que ali se discutia, em grande parte, eram questões mundanas: fofocas, intrigas entre vizinhos, disputas banais.
Sócrates intuiu essa decadência e tentou elevar o nível do debate público.
Sempre surgem grandes líderes ou movimentos quando uma sociedade entra em colapso moral.
Em 1975 — ano retratado no documentário da Netflix 1975: O Ano que Mudou Hollywood —, a Nova Hollywood viveu seu momento mais prolífico e revolucionário.
Seu maior expoente e rosto mais conhecido foi Jack Nicholson, que estrelou Easy Rider, um filme de contracultura sobre motoqueiros transportando drogas pelos Estados Unidos.
Nicholson era talentoso, mas não era exatamente um galã. Bert Schneider, produtor do filme, representava a contracultura contra a Guerra do Vietnã, expressando a tensão e a decadência da sociedade americana que se refletia no cinema.
Assim, um desajustado como um ex-combatente do Vietnã que vira taxista justiceiro (Taxi Driver), um estuprador internado numa clínica de loucos que propaga uma rebelião e vira líder (Um Estranho no Ninho), ou a corrupção real em conspiraçãoes paranóicas (Todos os Homens do Presidente, Chinatown, A Rede de Intrigas, A Trama) ganham protagonismo — e o público aplaude. Ou ainda Nashville, de Robert Altman, uma sátira onde o único personagem recorrente é um furgão fazendo propaganda política prometendo “limpar a cidade”, e as pessoas queriam votar nele.
O cinema representava o vulcão da quebra do “jeito americano de viver”. Nova York estava imunda. No Oscar, conservadores como Frank Sinatra e John Ford (de uma América que já não existia mais) vaiavam Bert Schneider por criticar a guerra no discurso de premiação.
Até que, como na Grécia cansada do pessimismo, surgiu a era do blockbuster, com a estréia de Tubarão, do Steven Spielberg. As pessoas estavam fartas de histórias densas e adoraram um filme em que o bandido não vence no final — um filme sobre nada. Em 1976 (não 75), Rocky ganhou o Oscar no lugar de Taxi Driver, Todos os Homens do Presidente e A Rede de Intrigas. A arte virou escapismo e passou a servir ao capital. Star Wars, de George Lucas, ajudou a sepultar de vez o cinema artístico. Entramos na era do blockbuster.
Scorsese, um dos maiores expoentes daquela época, só encontrou conforto na marginalidade, na cocaína, e só ganhou o Oscar ao se conciliar com o capital, trabalhando com astro de envergadura como Leonardo DiCaprio (Os Infiltrados).
Mais uma vez, a tendência humana pelo escapismo vem desde a revolução cognitiva, há 70 mil anos. O ser humano repete sua história.
Aqui no Brasil, como nos Estados Unidos, a decadência permitiu a eleição de outsiders: o democrata Jimmy Carter ou o republicano Gerald Ford.
Por aqui, a decadência da moralidade produziu bizarrices ainda maiores: a Lava Jato (o Travis Bickle da justiça brasileira), e Jair Messias Bolsonaro, o tubarão sanguinário contra a democracia.
Enquanto isso, corinthianos se emocionavam em 1990 com as embaixadinhas de Edilson Capetinha contra o Palmeiras e hoje comemoram suas polêmicas — tão inofensivas quanto as embaixadinhas — no BBB 26.
Como eu queria demonstrar: desde que aprendemos a criar cultura e história, pouca coisa mudou de verdade.