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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

O QUE SIGNIFICA “ESCREVO, LOGO EX-ISTO”

 


 

DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 



 

À primeira vista, a frase pode parecer apenas espirituosa, um simples trocadilho.

 

Em um nível um pouco mais rebuscado, para quem tem maior repertório, percebe-se a brincadeira com o cogito cartesiano: penso, logo existo.

 

O escriba em questão — euzinho — transfere a única certeza indiscutível de Descartes, o pensar, para o ato de escrever.

 

Ainda assim, essa transposição, embora parcialmente verdadeira, não dá conta de tudo o que esse axioma, esse aforismo, essa frase quer realmente dizer.

 


 

O FIM DO COGITO

Desde o advento da pós-modernidade, com Nietzsche, e mais recentemente com a neurociência — basta lembrar O Erro de Descartes, de Antonio Damasio —, tornou-se claro que o pensamento é sempre posterior aos estímulos, aos afetos, aos sentimentos.

 

Conforme o mundo nos afeta, nosso pensamento e nosso eu se transformam. Não existe no cérebro um “homenzinho da mente” que ignora os afetos e toma sempre as decisões mais racionais possíveis.

 

Definir a existência pelo pensar, portanto, não faz mais sentido algum.

 

Na verdade, os momentos de melhor existir são justamente aqueles em que o pensamento consciente se ausenta: quando você dirige, quando um piloto de Fórmula 1 contorna uma curva decisiva, ou quando um tenista fecha um set de Grand Slam.

 

Nesses momentos, ninguém pensa — apenas faz.

 


 

LINGUAGEM, TEXTO E EXISTÊNCIA

Até onde sabemos, o ser humano é o único animal capaz de linguagem — e, mais ainda, o único capaz de transformar linguagem em texto.

 

Também até onde sabemos, mortos não escrevem. E quem não escreve, ainda que saiba muito, não materializa esse saber.

 

Quem pode dizer, então, que essa pessoa existiu de fato?

 


 

O HÍFEN QUE MUDA TUDO

A brincadeira final com o hífen, separando ex de isto, pode parecer inocente — mas é fundamental.

 

Ex designa aquilo que passou. Isto remete à coisa, à reificação, ao objeto.

 

Escrever, portanto, significa deixar de ser coisa.

 

Ao escrever, torno-me um ex-isto: deixo de ser objeto à medida que dou forma ao pensamento por meio da linguagem.

 


 

DO ÔNTICO AO ONTOLÓGICO

O isto pertence ao nível ôntico, para usar a linguagem de Heidegger.

 

A escrita, por sua vez, opera na ordem ontológica: a do ser, da manifestação da existência.

 

Quem escreve deixa de ser apenas coisa, deixa até mesmo de ser apenas um indivíduo isolado, para SER.

 

Escrever é dar materialidade ao pensamento, é transformar o absoluto em rastro.

 


 

O RASTRO

Afinal, o valor de uma vida não está no que ela declara ser, mas no que ela cria.

 

Existir não é suficiente. É preciso deixar rastros, registros, marcas tangíveis dessa existência por meio de alguma obra.

 

Quem escreve oferece a quem vem depois a prova manifesta de que existiu — de quem foi, para o bem ou para o mal.

 

A escrita é o CPF da existência intelectual.

 

Quem não escreve, quem não deixa rastros, não é muito mais do que um indigente existencial.

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 22/01/2026
Alterado em 22/01/2026
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