O QUE SIGNIFICA “ESCREVO, LOGO EX-ISTO”
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À primeira vista, a frase pode parecer apenas espirituosa, um simples trocadilho.
Em um nível um pouco mais rebuscado, para quem tem maior repertório, percebe-se a brincadeira com o cogito cartesiano: penso, logo existo.
O escriba em questão — euzinho — transfere a única certeza indiscutível de Descartes, o pensar, para o ato de escrever.
Ainda assim, essa transposição, embora parcialmente verdadeira, não dá conta de tudo o que esse axioma, esse aforismo, essa frase quer realmente dizer.
Desde o advento da pós-modernidade, com Nietzsche, e mais recentemente com a neurociência — basta lembrar O Erro de Descartes, de Antonio Damasio —, tornou-se claro que o pensamento é sempre posterior aos estímulos, aos afetos, aos sentimentos.
Conforme o mundo nos afeta, nosso pensamento e nosso eu se transformam. Não existe no cérebro um “homenzinho da mente” que ignora os afetos e toma sempre as decisões mais racionais possíveis.
Definir a existência pelo pensar, portanto, não faz mais sentido algum.
Na verdade, os momentos de melhor existir são justamente aqueles em que o pensamento consciente se ausenta: quando você dirige, quando um piloto de Fórmula 1 contorna uma curva decisiva, ou quando um tenista fecha um set de Grand Slam.
Nesses momentos, ninguém pensa — apenas faz.
Até onde sabemos, o ser humano é o único animal capaz de linguagem — e, mais ainda, o único capaz de transformar linguagem em texto.
Também até onde sabemos, mortos não escrevem. E quem não escreve, ainda que saiba muito, não materializa esse saber.
Quem pode dizer, então, que essa pessoa existiu de fato?
A brincadeira final com o hífen, separando ex de isto, pode parecer inocente — mas é fundamental.
Ex designa aquilo que passou. Isto remete à coisa, à reificação, ao objeto.
Escrever, portanto, significa deixar de ser coisa.
Ao escrever, torno-me um ex-isto: deixo de ser objeto à medida que dou forma ao pensamento por meio da linguagem.
O isto pertence ao nível ôntico, para usar a linguagem de Heidegger.
A escrita, por sua vez, opera na ordem ontológica: a do ser, da manifestação da existência.
Quem escreve deixa de ser apenas coisa, deixa até mesmo de ser apenas um indivíduo isolado, para SER.
Escrever é dar materialidade ao pensamento, é transformar o absoluto em rastro.
Afinal, o valor de uma vida não está no que ela declara ser, mas no que ela cria.
Existir não é suficiente. É preciso deixar rastros, registros, marcas tangíveis dessa existência por meio de alguma obra.
Quem escreve oferece a quem vem depois a prova manifesta de que existiu — de quem foi, para o bem ou para o mal.
A escrita é o CPF da existência intelectual.
Quem não escreve, quem não deixa rastros, não é muito mais do que um indigente existencial.