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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

A NOSSA HISTÓRIA FOI ETERNA ENQUANTO DUROU

 


DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 


 

Quando penso nesta história, penso inevitavelmente em Dom Quixote — um clássico de Miguel de Cervantes talvez mais citado do que lido, mais conhecido de ouvir falar do que de fato compreendido.

 

Muitos devem ter tido algum contato indireto com o livro por meio do filme O Poço, em que a obra aparece como objeto simbólico. Arrisco dizer que poucos se interessaram verdadeiramente em ler o romance depois disso.

 


 

O MAL-ENTENDIDO DE DOM QUIXOTE

A tragédia de Dom Quixote não reside apenas na figura estranha de um homem que, após ler romances de cavalaria em excesso, decide tornar-se ele mesmo um cavaleiro andante.

 

Nem se resume a envolver seu fiel escudeiro — e melhor amigo — Sancho Pança, tão ingênuo quanto ele; nem ao amor idealizado por Dulcineia; nem às batalhas contra moinhos de vento tomados por gigantes.

 

De certa forma, ao decidir viver a aventura, Dom Quixote viveu mais intensamente do que se tivesse permanecido apenas à sombra da literatura.

 


 

UMA CRÍTICA À MÁ LITERATURA

Cervantes faz, ali, uma crítica direta à literatura de baixa qualidade. Imagino qual sátira ele faria hoje ao observar adultos consumindo livros de colorir, autoajuda superficial — quando leem — ou simplesmente girando o feed infinito das redes sociais.

 

Não. Dom Quixote era muito mais lúcido do que essas pessoas.

 


 

ONDE RESIDE A TRAGÉDIA

A verdadeira tragédia não está apenas no final da vida, mas no instante em que a brincadeira termina.

 

Quando Dom Quixote se dá conta da condição triste à qual esteve submetido e, num átimo, todo o seu ridículo vem à tona.

 

Isso revela que a vergonha é sempre uma percepção subjetiva: se não nos importamos, os loucos são sempre os outros.

 


 

O RASTRO DE UMA AVENTURA

Se nesta história não vivida eu fui um Dom Quixote, ao menos os rastros que deixei — estas páginas materialmente escritas — são a prova dessa aventura quixotesca.

 

E, portanto, nada há de ridículo nisso.

 

O que dói é a consciência de que, no fundo, tudo passou. Que talvez tudo tenha sido imaginação, verve artística, idealização.

 

Que ela tenha sido uma musa tanto quanto Dulcineia foi para Quixote.

 


 

O FINAL

Essa consciência corrosiva e trágica, que só surge no momento derradeiro, é onde a tragédia realmente habita.

 

A história, em si, enquanto foi vivida — ou escrita — foi bonita.

 

E, como diria Vinicius, o amor é sempre eterno.

 

Pelo menos enquanto dura.

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 21/01/2026
Alterado em 21/01/2026
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