A NOSSA HISTÓRIA FOI ETERNA ENQUANTO DUROU
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Quando penso nesta história, penso inevitavelmente em Dom Quixote — um clássico de Miguel de Cervantes talvez mais citado do que lido, mais conhecido de ouvir falar do que de fato compreendido.
Muitos devem ter tido algum contato indireto com o livro por meio do filme O Poço, em que a obra aparece como objeto simbólico. Arrisco dizer que poucos se interessaram verdadeiramente em ler o romance depois disso.
A tragédia de Dom Quixote não reside apenas na figura estranha de um homem que, após ler romances de cavalaria em excesso, decide tornar-se ele mesmo um cavaleiro andante.
Nem se resume a envolver seu fiel escudeiro — e melhor amigo — Sancho Pança, tão ingênuo quanto ele; nem ao amor idealizado por Dulcineia; nem às batalhas contra moinhos de vento tomados por gigantes.
De certa forma, ao decidir viver a aventura, Dom Quixote viveu mais intensamente do que se tivesse permanecido apenas à sombra da literatura.
Cervantes faz, ali, uma crítica direta à literatura de baixa qualidade. Imagino qual sátira ele faria hoje ao observar adultos consumindo livros de colorir, autoajuda superficial — quando leem — ou simplesmente girando o feed infinito das redes sociais.
Não. Dom Quixote era muito mais lúcido do que essas pessoas.
A verdadeira tragédia não está apenas no final da vida, mas no instante em que a brincadeira termina.
Quando Dom Quixote se dá conta da condição triste à qual esteve submetido e, num átimo, todo o seu ridículo vem à tona.
Isso revela que a vergonha é sempre uma percepção subjetiva: se não nos importamos, os loucos são sempre os outros.
Se nesta história não vivida eu fui um Dom Quixote, ao menos os rastros que deixei — estas páginas materialmente escritas — são a prova dessa aventura quixotesca.
E, portanto, nada há de ridículo nisso.
O que dói é a consciência de que, no fundo, tudo passou. Que talvez tudo tenha sido imaginação, verve artística, idealização.
Que ela tenha sido uma musa tanto quanto Dulcineia foi para Quixote.
Essa consciência corrosiva e trágica, que só surge no momento derradeiro, é onde a tragédia realmente habita.
A história, em si, enquanto foi vivida — ou escrita — foi bonita.
E, como diria Vinicius, o amor é sempre eterno.
Pelo menos enquanto dura.