QUEM É JAIR “MESSIAS” BOLSONARO?
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
Bolsonaro é o exemplo mais arrematado do que Giuliano da Empoli descreve como os “engenheiros do caos”: líderes outsiders que, por meio da manipulação de algoritmos, fake news e redes sociais, são alçados à condição de líderes políticos.
Quanto mais controverso o engenheiro do caos, melhor. É o caso do “ursinho”, que nasce como meme, mas ganha enorme adesão justamente por seu discurso de ódio dirigido a minorias, sinal dos nossos tempos.
Antes de ser elevado à categoria de líder pelos ideólogos da extrema direita, Bolsonaro era um político caricato. Sua maior aparição no debate público era participar de programas de entretenimento, como o SuperPop, de Luciana Gimenez, em episódios que beiravam o grotesco como a revelação de que Agnaldo Timóteo assume que não é gay, por mais incrível que isso possa parecer.
O linguajar chulo sempre esteve presente, agora reforçado pelo uso instrumental das igrejas pentecostais — um campo com o qual a esquerda jamais soube dialogar. Pastores como Silas Malafaia passam a ocupar o lugar de líderes políticos e ideológicos.
Ao redor de Bolsonaro gravitam figuras que operam como ideólogos locais, verdadeiros equivalentes tropicais de Steve Bannon, além do chamado “pornofilósofo” Olavo de Carvalho, cuja fala continha mais palavrões do que ideias.
Esse mesmo padrão de exclusão de minorias — ironicamente pouco cristão — aparece em outros movimentos da extrema direita contemporânea: Matteo Salvini, o Movimento Cinco Estrelas na Itália, ou o separatismo do Brexit.
Todos operam sob uma lógica de Torre de Babel: tentam impor separações que, segundo o mito, apenas Deus ousou instaurar.
Bolsonaro, no entanto, revela-se particularmente tosco. Em vez de usar estratégias mais refinadas de corrosão democrática — como aquelas analisadas em Como as Democracias Morrem, que mostram como regimes autoritários se instalam usando os próprios mecanismos democráticos — Bolsonaro flertou abertamente com um golpe violento e sanguinário.
Chegou a cogitar a eliminação física de lideranças democráticas no Brasil, numa contradição só comparável ao comportamento de Donald Trump, que afirma combater ditaduras, desde que sejam de esquerda, enquanto mantém relações umbilicais com regimes autoritários como o da Arábia Saudita.
Se a aversão fosse realmente às ditaduras, por que não enfrentar Erdogan, na Turquia, ou Orbán, na Hungria?
Bolsonaro, por incrível que pareça, construiu a imagem de um messias moral. Isso apesar da absoluta falta de empatia com as vítimas da Covid, do desrespeito à própria noção de família que diz defender — chegando a afirmar que usava um apartamento “para comer gente” — e da ironização constante da morte.
Somam-se a isso o autoritarismo explícito e os ataques diretos aos dois pilares da institucionalidade brasileira: o Judiciário e o Legislativo.
Condenado por crimes contra o Estado democrático, Bolsonaro foi preso. O autoproclamado “imbrochável” transforma-se em um chorão, incapaz de decidir se é um inválido ou um super-homem.
Mas, como na política o mundo não gira — ele capota —, vale lembrar que, durante a prisão do presidente Lula, sem provas, Eduardo Bolsonaro afirmou que preso não deveria visitar parente morto.
É curioso imaginar se a lógica punitiva que o bolsonarismo sempre defendeu deveria agora ser aplicada a eles próprios.
Afinal, se negavam direitos humanos aos outros, por que deveriam reivindicá-los para si, já que ele é menos um humano direito do que todos?