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Há uma certa poesia na dona de casa que consegue encaixar as despesas do mês — marido, filhos e, às vezes, até algum agregado, seguindo uma tradição que vem desde Dom Casmurro — no orçamento de um salário mínimo. Às vezes, até menos, contando apenas com o valor de um benefício.
É por isso que nos causa ojeriza e espécie — até espanto — ver ricos discursarem sobre os direitos dos pobres. No Brasil, há um humanismo às avessas: em vez de o pobre se revoltar com o lucro do rico, é o rico que sente raiva do lucro do pobre, mesmo quando esse lucro significa apenas sobrevivência.
Essa dona de casa exerce uma criatividade extrema para continuar vivendo.
Como se sabe, a empatia é uma capacidade do espírito. E é justamente por isso que muitos ricos carecem dessa habilidade: não conseguem se colocar no lugar do mais vulnerável.
O rico, ao contrário, demonstra frequentemente uma extrema falta de criatividade para viver. Há um pragmatismo árido até na forma como se relacionam entre si. O efeito colateral disso é que se tornam todos mais ou menos iguais, reproduzindo as mesmas coisas, legando as mesmas misérias. Não é preciso ser Émile Durkheim nem um Sherlock Holmes da sociologia para prever a penúria que algumas crianças herdarão — ao observar o ambiente e o modo de vida de seus pais.
Na filosofia, o conceito de angústia está ligado à multiplicidade de caminhos possíveis no momento da escolha. A cada escolha feita, abandonamos inúmeras outras possibilidades.
A impossibilidade de saber como seria a vida se tivéssemos escolhido diferente — esse desconhecimento radical — é o que produz a angústia.
Quando entramos em um relacionamento, por exemplo, deixamos de viver uma infinidade de outros. E essa banalidade da escolha, somada à imprevisibilidade do que teria sido, só pode gerar angústia.
A criatividade também diz respeito à melhor escolha possível dentro de oportunidades extremamente limitadas.
Quando disponho de recursos escassos para sobreviver, muitas vezes preciso de muito mais criatividade para viver bem com o que tenho.
Devo deixar de comer? Comer alimentos menos saudáveis? Ou deixar de beber para economizar e comer fora?
Se gosto de futebol, quanto custa, por mês, ingresso, transporte e alimentação para assistir aos jogos do meu time?
Se gosto de videogames, vale mais a pena um portátil moderno, um PC ultramoderno ou uma assinatura mensal para jogar na nuvem — o que exige, por sua vez, uma boa internet?
Será que assinar serviços de streaming ou usar inteligência artificial não pode, em certos casos, substituir gastos com nutricionista ou personal trainer?
E será que praticar atividade física e comer alimentos naturais, em vez de ultraprocessados, não significa, no longo prazo, economizar com remédios e médicos — e, mais ainda, ganhar tempo de vida?
Toda escolha é uma aposta. E aquilo que colocamos na aposta é sempre a felicidade — tendo como ficha principal o nosso tempo de vida.
Viver bem é, antes de tudo, uma questão de criatividade.
Algumas pessoas são extremamente criativas em viver mal, em ser ruins. A maldade é uma capacidade inerente ao ser humano, e a perversidade parece residir justamente nesses indivíduos que são muito criativos em exercê-la.
No mundo animal, não há maldade — há apenas sobrevivência.
O ser humano, ao contrário, escolhe a maldade: às vezes de forma mais criativa, às vezes mais deliberada e consciente.
Como fazem alguns ricos que, em vez de escolher reduzir a desigualdade, decidem lutar contra os direitos dos pobres!