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DAVE LE DAVE
SIM, ELE MESMO
Textos

 

O QUE FAZ DE UM GÊNIO, UM GÊNIO

 


DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR

 


 

Para oferecer meus dois centavos sobre como vejo a educação de crianças, recorro ao exemplo de Hideo Kojima — um dos maiores gênios da indústria dos videogames. Um verdadeiro mito.

 


 

FORMAÇÃO E CONTEXTO

Kojima entrou na Konami nos anos 1980, um dos períodos áureos tanto da indústria dos videogames quanto da empresa japonesa. Para entender sua entrada, é preciso compreender a diferença cultural de formação entre Japão e Brasil.

 

No Japão, à época, havia um programa estatal que incentivava — e em certos casos obrigava — empresas a contratarem recém-formados. Esse foi o caso de Kojima, formado em uma prestigiosa universidade de economia, recrutado pela Konami para a função de planner.

 

O planner era quem definia o conceito de um jogo: uma espécie de roteirista ampliado, responsável por história, enredo e estrutura da jogabilidade.

 


 

REPERTÓRIO COMO DIFERENCIAL

Kojima se destacou não pela formação técnica em economia, mas por sua formação cultural ampla: consumo intenso de literatura anglo-saxônica, cinema de arte japonês e americano, além de uma visão sistêmica e holística proporcionada pela universidade.

 

Essa combinação refletiu diretamente em sua criação artística. Ele rapidamente passou de planner a diretor criativo geral — um verdadeiro autor.

 


 

A MECÂNICA COMO LINGUAGEM

O sucesso veio com um jogo de espionagem: Metal Gear. Nele, Kojima criou uma mecânica em que o inimigo “lia” os comandos do jogador, obrigando-o, para vencer, a trocar o controle da entrada um para a entrada dois do console.

 

Ali nascia Solid Snake: um espião de alto calibre, uma espécie de 007 japonês, viciado em cigarros e diazepam — elementos que, inclusive, integravam a mecânica do jogo ao melhorar sua mira por meio da tranquilização do personagem.

 


 

A VIRADA AUTORAL

Mas o grande gesto autoral veio depois. Kojima percebeu o sucesso retumbante de Snake, sobretudo entre jovens que queriam ser como a Cobra Sólida.

 

Propositalmente, manipulou os trailers para sugerir o retorno de Snake. No entanto, no jogo, o jogador controlava majoritariamente Raiden — o oposto completo de Snake: inseguro, imaturo, produto de um treinamento conduzido por inteligência artificial.

 

Raiden representa o jogador que apenas segue ordens e acredita estar no controle. Exatamente como muitas pessoas na vida real, que seguem sugestões de algoritmos e desejos socialmente induzidos, imaginando exercer liberdade plena.

 


 

INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E ADAPTAÇÃO

Assim como no jogo, a inteligência artificial terá enorme influência na sociedade. Aqui faço o paralelo com a criação dos filhos e com a forma como, nesse contexto adverso, gênios como Kojima conseguem prosperar apesar de tudo.

 

A inteligência artificial terá impacto desadaptativo semelhante ao sedentarismo e aos alimentos ultraprocessados: substituirá profissionais ruins e empregos de entrada.

 

Profissões exercidas de forma medíocre — como personal trainers, advogados, nutricionistas — tendem a ser substituídas. Sobreviverão apenas os não substituíveis: cirurgiões, fisioterapeutas, atletas, artistas.

 


 

UMA TESE SOBRE EDUCAÇÃO

É nesse cenário que surge minha tese sobre a criação dos filhos. Pelo menos na primeira infância, a educação deveria ser mais lúdica, mais divertida, mais colorida, repleta de estímulos — e não orientada exclusivamente para vestibulares.

 

O conhecimento vestibularesco será o primeiro a formar profissionais substituíveis pela inteligência artificial.

 

Os gênios do futuro serão aqueles capazes de usar a IA criativamente: extrair dela o melhor por meio da elucubração, da inferência e da imaginação.

 

Para isso, é preciso pensar diferente da máquina — e isso só se alcança com filosofia, literatura, cinema, artes e ampliação do repertório cultural e cognitivo.

 


 

CONCLUSÃO

É isso que faz um gênio como Kojima ser um gênio: uma formação plural, cinéfila, literária, técnica e econômica, tudo colocado a serviço da criação artística.

 

Sem repertório, não há criação possível.

 

 

ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL)
Enviado por ESCRITOR DAVE LE DAVE II (OFICIAL) em 15/01/2026
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