A LIBERDADE É UMA ILUSÃO
DAVELEDAVE.RECANTODASLETRAS.COM.BR
“Deem-nos um carro, uma casa e um novo smartphone, mas concedam-nos também a liberdade.”
Liberdade. Palavra tão charmosa quanto difícil de definir. Pelo contrário, como já apontava Étienne de La Boétie, o ser humano tende a preferir a servidão voluntária, negando, na prática, sua suposta liberdade.
Quando todos os caminhos possíveis já foram traçados para você, a escolha se torna, inevitavelmente, uma ilusão.
A vida é esse grande plano-sequência, dirigido por um diretor que não conhecemos. Se minha capacidade de agir é definida pelas minhas circunstâncias — por exemplo, meu poder financeiro — quão livre eu sou, de fato, para fazer o que quero?
Há ainda a questão do outro. Diz-se que minha liberdade termina onde começa a do outro. Infelizmente, muitos não pensam assim, e esse é um dos grandes problemas da sociedade.
Nossas ações — ou até mesmo nossas limitações — são definidas socialmente: o que é válido ou não, aceitável ou não. Até o que devemos assistir ou consumir nos é sugerido por algoritmos, enquanto nos iludimos acreditando que estamos no controle.
A sociedade é muito eficiente em punir e julgar, mas péssima em se autoavaliar criticamente — e ainda pior em recompensar.
A não ser, é claro, quando a recompensa vem na forma da troca da liberdade ou do tempo livre a serviço do capital.
Sob certa perspectiva, o dinheiro compra tempo livre, possibilidades de ação, margem de escolha. O problema é que o capital cobra exatamente aquilo que temos de mais precioso: nosso tempo de vida.
Como Cronos, o deus do tempo, que se alimenta dos próprios filhos.
Alguns ainda acreditam no livre-arbítrio. Mas quem sofre por amor, ou convive com uma doença crônica como hipertensão ou obesidade decorrente do modo de vida, bastaria simplesmente exercer seu livre-arbítrio para mudar de situação?
Não sei.
Só sei que é preciso muita humildade para reconhecer que não somos tão livres quanto gostaríamos.
Ou, se como dizia Sartre, estamos condenados a ser livres, talvez estejamos, ao menos, condenados à ilusão da liberdade.